''Acontece que eu sou baiana. E acontece que ele também era. Eu e ele, Jorge, muito Amado, nunca nos encontramos. Por contingência do destino viemos, eu e ele, da terra onde repousam todos os santos. Nunca nos vimos. Durante alguns meses, contudo, nos conhecemos, sem nunca termos estado frente a frente.

Foi por carta, num tempo em que as pessoas arrancavam folhas de caderno e falavam umas às outras. Escreviam à mão, confidenciavam segredos, mandavam lembranças, enviavam fotos, firmavam compromissos, pediam-se em namoro, desmanchavam relacionamentos. Pais procuravam filhos, estes buscavam irmãos, fãs escreviam aos ídolos. Entre os pares distanciados, o papel era o limite. Os envelopes mais usados tinham bordas verde-amarelo e traziam a inscrição ''par avion''. Não havia constrangimento algum em lamber os selos. Os correios eram, então, um local cheio de mistérios. Era lá que as cartas ficavam, entregues a funcionários desconhecidos, tutores de nossos segredos, sabedores da magia de encaminhar e fazer chegar nossas correspondências. Nas cidades pequenas o carteiro era a figura mais estimada. Até a cachorrada que vivia solta nas ruas fazia-lhe festa. Era ele quem levava e trazia a tiracolo, numa sacola de tarja nossas dores, amores e esperanças, de lá para cá, mundo afora.

Na época das cartas manuscritas, os remetentes não faziam cópias do que escreviam. Não tenho exemplares da correspondência que remeti a Jorge, em 1989. Poderia ter usado um papel carbono e reservado alguma cópia. Não o fiz. Não lembro com exatidão como me dirigi a ele inicialmente, se o fiz com cerimônia obsequiosa, se fui informal. O endereço, lembro como consegui. Estava lá, no rodapé do livro preferido, ''Terras do Sem Fim'', um endereço: Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, CEP 41910. Eu saberia, algum tempo depois, que esse era o endereço da casa onde ele vivia.

Na primeira carta me apresentei, baiana radicada que sou. Falei a ele de Mortugaba, no sul da Bahia, cidade de onde vim, mas que pouco sei. Falei a ele da Mortugaba que conheci por boca de outros. Escrevi a Jorge sobre o Rio Gavião, um riacho, braço de Rio de Contas. Riacho onde as mulheres lavavam roupas nas pedras e que por vezes expunha o leito esturricado. Falaram-me, e eu disse a Jorge, que de Mortugaba dá para ver o Morro do Chapéu. Na retina de minha memória ficou construída a imagem de um morro onde brilhavam minérios. Ninguém em Mortugaba ficou rico com as pepitas de ouro que poderia haver no Morro do Chapéu, mas que elas estavam lá, isso estavam, era só procurar direito. Garanti isso a Jorge.

Confessei a Jorge que vim da Bahia como todos os retirantes da seca. Contei que minha família vendeu o que tinha e veio atrás da riqueza do Sul. De caminhão numa parte do caminho, de trem em outra, de ônibus e à pé, viajamos todos. Aqui, os mais velhos não perderam o sotaque. Continuaram a gostar da farinha, do feijão de corda, do pirão de galinha, do sarapatel. Eu não. Não puxo o erre, dispenso a farinha, comi sarapatel uma única vez, confundo-me com os paranaenses. Mas as raízes não se extinguiram, disse à Jorge, para me redimir. Baiano que é baiano não esquece o gosto da rapadura que a mãe colocava na boca da gente para enganar a fome.

Na primeira carta a Jorge falei particularmente das sementes de umbu que trouxemos da Bahia. Contei que uma delas germinou e fez nascer um grande umbuzeiro, de copa frondosa. Do gosto do umbu, do balanço de corda amarrado nos galhos, das brincadeiras debaixo da sombra, tudo escrevi a Jorge. Ele não respondeu a primeira carta. Escrevi outra. Perguntei a ele onde ficavam as terras do sem fim. Pedi a ele que descrevesse como era uma semente de cacau, que eu nunca tinha visto. Pedi também a Jorge que me contasse sobre a água salgada do mar, que eu viria a conhecer muito tempo depois.

Em outra carta, falei de Nacib. Afinal, Jorge, de que país distante viera ele? Eu desconhecia a complexidade da geopolítica, não entendia bem as razões que levavam homens a partir de terras longínquas. Se eram árabes, Jorge, por que os brasileiros chamavam homens como Nacib de turco? Mais tarde eu saberia que ao aportarem no Brasil eles traziam carimbos do Império Turco-Otomano, que dominavam os países árabes. Fascinava-me, e eu disse isso a ele, a mala de mascate do árabe.

Não sei quanto depois depois de ter enviado as três cartas o carteiro bateu palmas à minha porta. Era Jorge, que chegou em envelope de bordas verde-amarelo. Na verdade, era a secretária dele, informando que o pai de Gabriela estava na Europa. Ciosa, a secretária enviou ao escritor minhas duas cartas. Agradeci a ela, em resposta. E escrevi ainda uma quinta carta, na esperança de que a secretária mandasse minhas cartas para além-mar. Minha correspondência, postada no Paraná, atravessou estados e foi parar na Bahia. De lá viajaram minhas cartas, com minha letra miúda, escritas em tinta azul, rumo à Europa. Será que viajaram de navio, ou foram ''par avion''?

Entre o sentar e rascunhar, passar a limpo, subscrever envolepe e ir ao correios, deve ter transcorrido mais de seis meses. Voltou o carteiro, já ao fim de 89, com outra carta. Desta vez era Jorge, que já estava de volta à Bahia. Escreveu-me em uma folha de bloco para carta. Reservo-me o completo teor, mas posso dizer que ele falou dos árabes na Bahia, das terras do sem fim, do jeito de ser do baiano. Disse-me ele que o baiano pode ir e vir, enriquecer, empobrecer, perder o sotaque, mas ficará para sempre o gosto da rapadura.

Dois ou três dias depois da chegada da carta dele, uma surpresa. Trouxe o carteiro um pacote. Abri-o. Dentro, um livro, que ele enviou direto da casa, no Rio Vermelho, Salvador, no dia 1º de dezembro de 89. Escreveu ele na primeira página: ''Para Maranúbia. Obrigado por sua boa carta de setembro, que somente agora, de volta à Bahia, recebi. Um abraço cordial. Joge Amado. Bahia, novembro, 89.''

Ao postar hoje uma carta para ele, talvez eu começasse assim: 'Jorge, ainda não sobrou tempo para procurar o ouro do Morro do Chapéu. Mortugaba ainda continua sendo para mim um ponto no mapa e uma lembrança na retina. Qualquer dia desses quero ver se consigo visitar o cais de Ilhéus, as plantações de cacau nos arredores de Itabuna. Infelizmente, não lembro mais do gosto do umbu. Mas, alegre-se, caro Jorge, pois fui para as terras do sem fim e vi lá os conterrâneos de Nacib. Nas terras do sem fim há mais do que malas de mascate, querido Jorge. Cartas, não há tempo de escrevê-las mais. Guardo as suas e o livro que ganhei. E você, guardou as minhas? Qualquer dia desses volto à Bahia e vou procurar a rua de onde partiram suas cartas. Você tem um umbuzeiro no quintal, Jorge? Disseram-me que vou encontrá-lo descansando à sombra de uma mangueira. Saudações baianas. Com carinho, Maranúbia.''

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