Curitiba - O escritor Austragésilo Carrano Bueno, autor do livro ''O Canto dos Malditos'', voltou a se acorrentar ontem, em Curitiba, para protestar contra a retirada do seu livro das prateleiras. Na última terça-feira, a 1 Câmara Cível do Tribunal de Justiça manteve decisão de proibir a venda do livro por entender que a obra fere a imagem do médico Alô Guimarães, citado pelo autor. A Editora Rocco, que lançou as últimas duas edições do livro, promete recorrer agora no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Essa é a terceira vez que Carrano se acorrenta em protesto à decisão, que ele classifica como ''censura e volta da ditadura''. A manifestação de ontem aconteceu em frente ao Tribunal de Justiça, em Curitiba, e durou cerca de três horas.
''O Canto dos Malditos'' traz citações autobiográficas e narra a experiência do autor em hospitais psiquiátricos de Curitiba, depois que ele foi internado pelo pai. O motivo foi um cigarro de maconha encontrado nas coisas do escritor que, na época, tinha 17 anos. A história inspirou o filme ''O Bicho de Sete Cabeças'', dirigido por Lais Bondanzki e protagonizado por Rodrigo Santoro. O filme ganhou 44 prêmios internacionais e nacionais.
A primeira edição do livro foi lançada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) na década de 80. Para o advogado da Editora Rocco, Eduardo Virmmond, é ''curioso'' que a ação tenha sido ajuizada quase 15 anos depois do lançamento da primeira edição. ''É quase surreal'', comenta. O advogado lembra que o médico citado foi professor da UFPR e na época do lançamento do livro não foi cogitada a sua apreensão. Depois de ser editado pela universidade, a editora Lemos ainda lançou sete edições do livro.
Mas depois do lançamento pela Rocco e concomitante ao lançamento do filme, a ação foi ajuizada a pedido de Ilka Maria Guimarães Paolini e Luiz Cláudio Surugi Guimarães, herdeiros do médico Alô Guimarães, que já morreu.
A Editora Rocco fez alguns cortes no livro retirando passagens que poderiam soar ofencivas, o que não evitou o embargo da obra. O advogado da editora ressalta que a Rocco tem a sua responsabilidade ''resguardada''. Para Virmmond, a decisão judicial fere a liberdade de expressão, mas a repsonsabilidade pelo conteúdo do livro é do autor.
Carrano já responde dois processos em decorrência do livro. Em um deles ele foi condenado a pagar R$ 60 mil por danos morais à família do médico. Em outro, cuja decisão sairá em outubro, ele pode ser condenado a pagar R$ 5 mil a cada vez que citar o nome do médico na imprensa. ''Isso é um absurdo. Até hoje eu tenho sequelas físicas do tratamento a que fui submetido e ainda tenho que pagar por isso.''
O autor está organizando, apoiado pela classe artística da cidade, uma passeata para continuar o protesto contra a decisão judicial. ''Não acredito mais na Justiça paranaense, mas tenho que continuar lutando'', disse.

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