Quando escreveu a primeira versão de ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', publicada em 2000, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar sentiu medo. Ele fugiu de certas reflexões sobre a sua relação com o pai, escondendo-se atrás de metáforas um tanto afetadas. ''O poeta não suporta aquilo que está descobrindo com o poema: ele olha para o lado, tenta disfarçar'', diz.
As imagens construídas no poema representavam fuga e desvio. ''Só vejo o que escondo.'' Carpinejar aprendeu: não dá para fugir da memória, até daquela que está construída em bases imaginárias e não somente no vivido. A poesia tem de se tornar a ''carne viva, sem pele, sem proteção''. É a revelação.
Carpinejar precisou de oito anos para encarar o acerto de contas doloroso, mas bem-sucedido com o seu pai Carlos Nejar, que se divorciou de Maria Carpi, quando Carpinejar tinha 7 anos. ''Meu retorno ao livro foi isso: vou ficar até o fim, chorando ou não.'' Em 2008, surge outro ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', com a inclusão de passagens novas, em que o filho é capaz de encarar melhor a si mesmo, processo inevitável no amadurecimento, e de sentir a compaixão por um pai ausente, a encarnação do abandono. ''Nasci vingativo,/ negando o que deveria perdoar,/ omitindo/ o que deveria mencionar/ exagerando para soar falso/ o que de verdade sinto.''
Na nova versão, Carpinejar faz uma descrição da infância do pai e não fica preso somente à imagem do pampa, essa mitologia afetiva localizada no Sul. Para entender-se, Carpinejar precisou entender a experiência do pai. ''Permaneceste apartado das pipas,/ das bolitas, das corridas de rolimã.// Menino sensível,/ fruto sem caroço./ Eternamente em casa.// Romã sufocada pela casca./ Não brincaste contigo,/ não brincarias comigo.
O diálogo se fez indispensável, assim como a visita franca - e corajosa - ao passado. ''O que é mais comovente é que meu pai tenha sido uma criança tão desajeitada quanto eu fui'', ele diz. Essa constatação é fundamental na travessia do poema único, feito em tercetos sem métrica fixa, que compõe ''Um Terno de Pássaros ao Sul''.
Sob o peso de suas memórias magoadas, Carpinejar percebeu que precisava agir como um cego: tatear, apalpar, desenvolver outros sentidos. ''É tentar ensinar o abraço a duas pessoas que se tornaram muito carentes, e nesse caso aproximar é uma forma de ferir.'' Ele explica que os homens estão treinados para se proteger e evitar as vulnerabilidades, que podem ser confundidas com a manifestação do afeto. ''É aquele desconforto mútuo de não saber receber.''
O problema não está tão-somente no ato da doação, é possível ler nesse longo poema do escritor nascido em Caxias do Sul, em 1972. Está em saber receber aquele que um dia se ausentou e que, por isso mesmo, se tornou mais desejado. O retorno do pai pode ser tão devastador quanto a partida e a prolongada ausência. ''Sim, o dia do retorno/ toma o que é livre/ e não restará vôo de nossa carne,// como se o corpo/ houvesse sido imaginado.''
Carpinejar explica que, apesar de haver um acerto de contas entre ele e seu pai, não quer ser fixado por ninguém na leitura dos versos, quer é ser esquecido. ''O poeta está atuando para o leitor, que deve povoar o poema.''
Em ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', ele mostra a importância de conquistar a serenidade em relação ao passado: examinar o que há de exagerado e imaginado nas memórias, que são o fardo do indivíduo pela vida afora. ''Eu me despedi do passado, quando falo dele eu acabo me libertando.'' Porque os segredos são maiores quando guardados, quando são ditos, eles se esvaziam.
O Carpinejar do ''Um Terno de Pássaros ao Sul'' de 2008 é mais adulto do que o de 2000, ele teve de encarar essa exigência. Nesse ponto, ele atingiu a maturidade, por meio da qual percebeu ser necessária a mudança das palavras e das imagens no poema, cujo título encerra a utopia da união inocente e afetiva do trio: o filho e os seus pais.
Antes de chegar a tal percepção, Carpinejar precisou se calar e aceitar a imagem do marido que sua mãe, Maria, lhe passava. A distância ia se transformado em distanciamento, que é a ausência engolida a contragosto, aquela que ensina o homem a ser frio. ''E, quando se tem algo importante e dolorido para perguntar e não se pergunta, forçosamente tu és ensinado a acumular o silêncio'', diz.
Esse silêncio acumulado gera um excesso, que não é outra coisa senão o esquecimento do que se queria perguntar e do jeito de perguntar. ''Daí tudo começa a ficar solene, a dor que é terrível se soleniza''.

SERVIÇO
- Um Terno de Pássaros ao Sul
Autor - Fabrício Carpinejar
Editora - Bertrand Brasil
Páginas - 96

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