Carone traduz 31 relatos de Kafka
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de julho de 2002
José Castello<br> Agência Estado<br> Manter-se fiel à dureza do estilo de Franz 
Manter-se fiel à dureza do estilo de Franz Kafka, sem floreá-lo, ou embelezá-lo. Essa é a principal regra que se impôs o ensaísta, escritor e tradutor Modesto Carone, responsável pela tradução da obra de Kafka no Brasil. Mais uma vez, é essa ''linguagem pontuda'', como ele a define, que predomina na tradução dessas ''Narrativas do Espólio'' (Companhia das Letras, 232 págs., R$ 27).
Ficcionista ele também, Carone admite que, depois de 20 anos de trabalho com a prosa kafkiana, certas marcas desse estilo ficaram presentes em seu próprio trabalho criativo. No momento, ele tem pronta a metade de um livro de contos. ''Estou tentando escrever um novo conto, mas está bastante difícil'', comenta. Mozart dizia que só escreve música quem tem dificuldade para escrever música, lembra. ''O mesmo pode ser dito a respeito da literatura: escritor é aquele que tem dificuldade para escrever e não aquele que escreve facilmente.'' Carone chegou a passar uma temporada em Praga, a cidade em que Kafka nasceu e viveu, ministrando um curso sobre a recepção de sua obra no Brasil. Recentemente, fez em São Paulo dois seminários sobre o escritor checo, frequentado, sobretudo, por psicanalistas. Kafka está, em definitivo, ligado a sua vida.
Há quanto tempo o senhor se dedica a traduzir Kafka?
Eu comecei a traduzir Kafka por ocasião de seu centenário do nascimento, no ano de 1983. De início, pequenos contos, para ilustrar um ensaio que publiquei na imprensa. Naquela época, eu estava fascinado com uma novela de Kafka, ''A Construção'', e, animado, decidi traduzi-la também, o que me tomou uns três ou quatro meses. Foi uma experiência muito difícil, mas fascinante, que me deu forças para seguir em frente.
O que o levou a traduzir sistematicamente?
Por aquela época, a editora Brasiliense me encomendou uma antologia de narrativas de Kafka. Respondi que antologia eu não faria, mas que me sentia preparado para começar a traduzir sua ficção completa. Só agora, quase 20 anos depois, estou chegando ao fim desse projeto que, depois, foi levado para a Companhia das Letras. Só nessa editora são nove volumes e 11 títulos.
O que ainda falta a ser feito?
Ainda quero traduzir o romance mais conhecido por ''América'', mas que o próprio Kafka preferia chamar de ''O Desaparecido''. Quem deu o título, ''América'', foi seu amigo Max Brod e é, sem dúvida, um bom título. Kafka referia-se a esse livro, muitas vezes, como ''o meu romance americano'' ou, então, ''o meu romance de Dickens''. É, de fato, uma narrativa de peripécias e cheia de sentimentalismo, à moda de Dickens, um romance, a rigor, pré-kafkiano.
E quanto à correspondência, não está em seus planos?
Com exceção da ''Carta ao Pai'', que já está traduzida de maneira independente e se parece bastante com um romance, as cartas não estão, no momento, nos meus planos. É um trabalho muito extenso. A ficção já forma mais 1.500 páginas de texto cerrado. Quanto à correspondência, só as cartas a Felice, que Kafka escrevia às vezes três por dia, chegam a mais de 700 páginas. Além delas, existem as cartas a Milena, além da correspondência aos amigos e outras, mais esparsas, como, por exemplo, a dirigida aos editores. É muita coisa. Eu gostaria muito de traduzir, pelo menos, as cartas a Felice. Elas passaram a me impressionar, sobretudo depois que li o célebre ensaio de Elias Canetti, que é uma psicanálise notável desprovida de qualquer jargão, na qual Canetti desvenda o homem Kafka por dentro. Se vier a fazer, se tiver tempo e fôlego, eu começaria por aí. E há ainda o ''Diário'', com o mesmo volume de páginas, e que ele escrevia como peça literária.
Enquanto as cartas não são traduzidas para o português, que traduções estrangeiras o senhor recomenda ao leitor que não domina o alemão?
Quem não puder ler as cartas no original deve procurar as traduções inglesa e italiana, que são as melhores. Não aconselho a tradução francesa. Os franceses arredondam o texto de Kafka demais, eles encontram em Kafka uma beleza que não é a beleza de Kafka. Mesmo em Borges, que traduziu lindamente Kafka para o espanhol, o que você sente ali é a elegância de Borges e não a beleza de Kafka, que é agressiva, pontuda. Kafka, ele mesmo, dizia, ''eu faço literatura para fazer sofrer''.


