Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A expansão do Carnaval de rua de Salvador deve bastante a Moraes Moreira. O músico se dedicou com afinco à festa popular, após a saída do grupo Novos Baianos, em 1975. Posteriormente, se afastou, revoltado com a descaracterização da folia em consequência do turismo.
O exílio foi curto. Logo o músico voltou às ruas de Salvador, mas quando a axé music explodiu, transferiu seu trio para o Carnaval de Recife. Agora, em homenagem aos 50 anos da invenção do trio elétrico, Moraes Moreira faz um verdadeiro retrospecto do Carnaval baiano em ‘‘500 Sambas’’, disco que está saindo pela Abril Music.
O CD traz um passeio pelo samba, homenageia Dodô e Osmar, conta com as participações de Armandinho, do bloco do Ilê Aiyê e percussionistas da Timbalada, além de trazer algumas referências de axé – não se preocupem, Moraes Moreira não virou a casaca.
O músico rodou por toda Salvador tentando compreender o sucesso da axé music, e se deparou com uma estrutura que desconhecia. Sem entrar no conteúdo estético, Moreira constatou que a axé profissionalizou o mercado da cidade, abrindo espaço para a criação de estúdios, coisa inexistente há 20 anos.
‘‘Naquela época não se podia fazer uma carreira em Salvador. Não estou entrando no mérito da estética, e nem seria ético da minha parte fazer isso, mas fiz contatos com um fenômeno que está fazendo 15 anos, e hoje a Bahia tem muito estúdio, muito músico e muito mercado’’, comenta, em entrevista à Folha2.
Em parceria com Tavinho Paes, ‘‘Brasil 500 Sambas’’ abre o disco com um samba de ginga carioca e rimas criativas. A percussão, bem definida, ganha apoio de arranjos de sopros e coros – a faixa é uma das melhores do álbum.
Moraes Moreira não perdeu o estilo. Mantém a alegria característica de suas composições e passa, nas faixas seguintes, a se dedicar a ritmos nordestinos, sempre balizado pelo samba. ‘‘Festa de Arromba’’, por exemplo, traz um afoxé bem instrumentalizado. Há também uma boa regravação de ‘‘A Lua dos Amantes’’, parceria com Pepeu Gomes.
O disco segue com poucas oscilações, dando ênfase aos arranjos. O Carnaval de Moraes Moreira é melódico, não alucinado. Não traz o frenesi coreografado de alguns grupos atuais, mas se prende às raízes do Carnaval baiano, mantendo-se mais próximo dos blocos tradicionais do que das paradas de sucesso. Aí também há uma referência à malícia do samba-de-roda em ‘‘Só de Sacanagem’’, que fala de sexo sem duplos sentidos.
‘‘A música mais representativa do espírito da música brasileira é o samba. O disco começa se referindo aos 500 anos do Descobrimento, e depois entra mais para a Bahia, como uma reportagem musical sobre os últimos 50 anos da música baiana’’, explica o compositor.
Com referências de baião, frevo, afoxé, marcha e samba, Moraes Moreira mostra porque continua importante para o Carnaval: para questionar a padronização da música de trio elétrico e mostrar que melodia não estraga a festa.

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