Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A temporada anual da Orquestra Sinfônica do Paraná começa neste domingo, às cinco da tarde, com um concerto no Canal da Música, em Curitiba, sob a regência do maestro Alceo Bocchino. A proximidade do Carnaval motivou Bocchino a escolher um programa cujas peças têm como tema a festa momesca. Naturalmente as cores contidas nas composições nem de longe lembram a folia brasileira, com excessão de ‘‘Carnaval Carioca’’, de José Guerra Vicente. ‘‘Ela contém um pouco de apelo; traz algumas melodias carnavalescas da música popular brasileira. É mais atrevida, embora nem tanto’’, pondera.
Pois bem, o concerto não sai da linha. Abre com ‘‘Carnaval Romano’’, de Berlioz e na sequência virá ‘‘Carnaval dos Animais’’, de Saint-Saens, com os solos dos pianistas Giulio Draghi e Sérgio Tavares. O ator Mário Schoemberger terá participação especial no papel de narrador. Na segunda parte serão executados o ‘‘Carnaval Carioca’’, de Guerra Vicente e a ‘‘Abertura Carnaval op.92’’, de Antonin Dvorak.
Alceo Bocchino, como sempre ocorre em suas regências – tradicionalmente abre a temporada anual e dirige o concerto de aniversário da orquestra – pede ao público que compareça ao teatro. A mudança de endereço, do Teatro Guaíra para o Canal da Música, de certo modo afasta uma parcela da platéia. É uma reação natural, mas que pode ser superada.
‘‘Realmente a sala é muito bonita, mas a OSP funciona de uma maneira ainda não perfeita’’, diz o maestro. O problema está no palco: é muito largo – tem a largura da platéia – e muito alto. ‘‘Ele não foi feito para orquestra sinfônica’’, considera. ‘‘Algumas coisas precisariam ser feitas e acredito que a direção do teatro está tratando disso, porque a acústica é um problema que atinge alguns instrumentos. Mas o concerto vai sair muito bem, muito bonito’’, assegura.
Ele não perde a oportunidade de lembrar que a orquestra precisa da realização de um concurso para novos integrantes, e ironiza o pagamento que recebe por apresentação: ‘‘Embora eu seja da terra, meu cachê é muito baratinho comparando-se aos de outros maestros que vêm aqui.’’ A alfinetada é acompanhada por palavras de carinho: ‘‘Venho por amor, porque gosto da orquestra e sou um dos seus fundadores.’’
É inquestionável a relação de Bocchino com a Sinfônica do Paraná, que acabou criando uma ponte artística mais assídua entre ele e a terra natal. Desde 1946 morando no Rio de Janeiro, depois de uma saída traumática quando as autoridades locais negaram-lhe apoio para estudar no exterior (conquistara uma bolsa, mas não tinha condições de sair do País), Alceo Bocchino firmou-se como um dos mais importantes nomes da música brasileira.
O Rio reconhece sua capacidade. Ano passado, ao completar 80 anos, foi alvo de inúmeras homenagens naquela cidade, somando-se a outras que aconteceram anteriormente por outras razões. Enfim, o maestro esteve no centro das atenções. Declinou de convites para três concertos, mas um dos que regeu há poucos meses, se deu na Sala Cecília Meirelles. O espetáculo foi uma homenagem promovida em conjunto pela SCM e Orquestra Sinfônica Brasileira.
Também foi-lhe outorgado o título de comendador da Fundação do Barão de São Gonçalo, que tem como patrono o príncipe de Bragança. A Academia Nacional de Música concedeu-lhe o título de membro honorário; na Academia Brasileira de Música deu conferência sobre suas obras e na Academia Brasileira de Letras discorreu sobre ‘‘Originalidades da Música Brasileira’’. ‘‘Olha, foi tanta coisa que a gente não lembra de tudo’’, conclui.
Concerto de abertura da temporada anual da Orquestra Sinfônica do Paraná, com obras de Berlioz, Saint-Saenz, Guerra Vicente e Dvorak. Regência de Alceo Bocchino. Solos de Giulio Draghi e Sérgio Tavares. Hoje, às 17 horas, no Canal da Música, Rua Júlio Perneta, 695, fone 335-5273. Ingressos a R$ 5,00.