Carnaval dos tempos modernos (Carlos da Silva)
Alfredo parecia paspalho com aquela fantasia de palhaço. Sóbrio era o típico chato, que dificultava qualquer diálogo. Depois de beber em excesso, conseguia dormir com a cabeça sobre a mesa. Literalmente saía do ar. Após o baile os amigos, se é que os tinha, o levavam para casa. Dormia até por volta da hora do almoço, quando o estômago apertava a tecla fome-enter. Almerinda, fantasiada de odalisca no carnaval do clube, nem acordada estava. Abriu os olhos ao ouvir o maridão rosnando qualquer coisa. Como resposta ela advertiu: Nem morta saio desta cama. Trate de encomendar a bóia pelo telefone. Aliás, estou morrendo de fome.
- Pode-se saber o que madame fez das 4 da manhã até agora? Garanto que suas amigas estão pondo a mesa... Não tente enrolar. Sem ensaio você gagueja, como agora. Deixa pra lá.
Era importante falar com Feitosa sobre assunto que não convinha Almerinda ouvir. Feitosa teria que recapitular o papo com Marinha. Mais tarde ele soube que a situação estava mais favorável do que temia. Barra tranquila na noite seguinte. Almerinda, enquanto almoçava o filé de peixe e o carneiro cozido,
fez a proposta de ficar com o carro na próxima noite. Queria retribuir a gentileza de amigas que tornaram possível rever antigas companheiras. Alfredo não pestanejou, mas aconselhou cuidado redobrado como o novo código de trânsito. E completou: Uma bobeada e lá vai nossa bufunfa do mês.
O baile do segundo dia do carnaval agradava. Mas Almerinda precisava ajudar a resolver um problema doméstico de Lavínia. Tenho de ir agora, bem... Conto tudo depois... Tchau. A orquestra atacava de Tomara que chova três dias sem parar... Alfredo foi ao meio do salão, tomou Marinha dos braços do amigo Geléia e confidenciou que o farol estava verde. Não havia problema com o carro da nova namorada. O problema surgiria no carro de Alfredo, que Almerinda esfolara ao manobrar na entrada do box do motel. Embora se sentindo traído, Alfredo manteve a elegância mesmo depois de comprovar os danos sofridos pelo paralama.
Todas as noites Almerinda saía com o carro para beneficiar amigas. Quando ela não antecipava a informação de que sairia, o próprio marido se incumbia de fazê-lo. Quanto mais cedo ela saía, mais cedo ele apanhava Marinha, que acabou deixando com ele o BMW que seu irmão lhe confiara. Ele não ia precisar mesmo... Ele tem carro demais.
Os festejos momescos dos dois casais duraram até a madrugada de quinta-feira, da maneira mais prosaica possível. Almerinda freou, o pneu careca não segurou e o carro se arrebentou na árvore. Amigas para o hospital e o carro para o pátio do Detran. O BMW não passou pela blitz porque havia sido roubado. Houve complicações mais sérias com a Polícia. As relações do casal Alfredo - Almerinda ficaram estremecidas longo tempo, mas decidiram pela reconciliação.
Ela não aceitava o fato de o marido utilizar carro roubado. Alfredo retornou aos braços da esposa com a condição de que fosse pago por ela o conserto no paralama, conseguido no box do motel...





