Todo dia é dia de prestar homenagens aos imigrantes radicados em Londrina. É o que pensa a diretoria da escola de samba Explode Coração, que levou a afirmação ao pé da letra ao escolher o tema para o desfile desse ano. Guindada ao Grupo A no último Carnaval, a agremiação vai para a avenida com o enredo ‘‘A Memória de um pioneiro e a busca da igualdade racial’’, de autoria de Benevides e Puninho.
  A Explode Coração vai desfilar no dia 3 de fevereiro (domingo) dividindo a passarela do samba do Autódromo Internacional Ayrton Senna com as escolas Gaviões Londrinenses e Garotos Unidos da Zona Sul. Usando a linguagem do turfe, é o ‘‘azarão’’ do Carnaval londrinense em 2008. ‘‘Já falaram que a disputa está polarizada entre essas duas escolas e que seríamos a zebra. Entramos como franco atiradores e vamos comer pelas beiradas. Se bobearem, a gente chega lᒒ, assinala o presidente Benedito Macedo, o Benê, que assumiu o comando da escola em 2006.
  De acordo com Benê, a escola vai exaltar a convivência harmoniosa entre as etnias na formação de Londrina. ‘‘Apesar de ser uma cidade nova, ainda menina, Londrina tem muita história. Seus primeiros moradores deveriam ser sempre lembrados e não apenas em épocas de aniversário de 50 ou 70 anos do município’’, diz.
  Embora critique as celebrações pontuais, é provável que sua própria agremiação nunca tenha ressaltado as virtudes locais com tanta ênfase desde sua estréia na avenida em 2003. ‘‘Tem quer ser bairrista mesmo, porque a cidade oferece um material muito rico, digno de ser resgatado e apresentado ao público. E, afinal de contas, é o lugar que nos acolheu’’, completa.
  A pesquisa de enredo, segundo ele, mostrou que a população local foi sendo constituída ao longo das décadas principalmente por paulistas, mineiros, nordestinos e gaúchos. Já entre os imigrantes estrangeiros e descendentes, a maioria daqueles que se instalaram na terra vermelha foi formada por alemães, italianos, japoneses e árabes. ‘‘Há outras etnias, mas foram essas que fizeram a cidade’’, salienta.
  No desfile, a comunidade nipo-brasileira receberá uma homenagem especial em comemoração ao centenário da imigramaçao japonesa no Brasil. ‘‘Não poderia faltar uma homenagem ao Imin 100 de jeito nenhum. E será uma de nossas surpresas’’, observa.
  A Explode Coração vai para o desfile com 300 integrantes, com destaque para o mestre-sala Juninho e a porta-bandeira Janaína, que ostentam formação em dança pelo Ballezinho, da Funcart, e fizeram cursos para mestre-sala e porta-bandeira no Rio de Janeiro com a escola Beija-Flor de Nilópolis. ‘‘Eles tiraram nota 10 em seus quesitos no Carnaval do ano passado. E não mexemos em time que está ganhando’’, diz Benê.
  A diretora da bateria é Suyane Alves de Souza, que atuou por escolas diversas como Navegantes do Mar Azul (já extinta), Unidos do Jardim do Sol, Gaviões Londrinenses e Império da Zona Norte. Ela toca tamborim desde criança e é filha do carnavalesco Armando Alves de Souza (mais conhecido como ‘‘Armandão’’), um dos fundadores da Navegantes do Mar Azul.
  ‘‘A escola está bem desenhada. Como nos anos anteriores, as fantasias e alegorias poderão conquistar muitos pontos, assim como os quesitos de conjunto e evolução’’, afirma o presidente. Com a aproximação do desfile, Benê queixa-se das condições de trabalho que enfrenta para tocar a agremiação. Lamenta a inexistência de espaços para as escolas desenvolverem suas atividades ao longo do ano.
  ‘‘Nossa escola está trabalhando em sete locais diferentes e em bairros distintos. Temos que nos desdobrar e, nesse período de chuva, tudo fica mais complicado. Por isso, reivindico barracões para todas as escolas que serviriam de ateliê e local de ensaios’’, salienta. Segundo ele, as comunidades envolvidas poderiam trabalhar ali o ano inteiro e não apenas nos 30 dias que antecedem o carnaval e ainda promover feijoadas ou bingos para arrecadar dinheiro.
  Mesmo distantes do ideal, seus integrantes querem fazer bonito na avenida e mostrar que não subiram para o Grupo A
por acaso.

SAMBA-ENREDO
‘‘A Memória de um Pioneiro e a busca da Igualdade Racial’’
A Explode fala um pouco da menina
Que hoje é Londrina
Pra onde eu vim morar
Sou paulista, sou mineiro, sou do Nordeste
Cabra-da-peste da linguagem do povão
Na descendência eu sou afro-brasileiro
Loira-gelada, vinho tinto e chimarrão
Sou um imigrante
Aqui cheguei primeiro
Até formamos sindicatos
Que é modelo de trabalho e união
Estou no campo, na indústria e no comércio
Estou no centro do universo
Então ‘‘Explode Coração’’
Chega de hipocrisia
Quero hegemonia nessa relação
Quero ver meu povo sambar, sorrir e cantar
Sem discriminação
Estou feliz aqui, ô, ô, ô
No pó vermelho que adotei
Esse é meu rincão
É meu mundo e é meu chão
Cidade por quem me apaixonei
Foi o céu azul e o canto do jacu
Ouvi e aqui fiquei (mas estou)
Solta a Maria-fumaça pra pulverizar
Nessa terra fértil o que se planta dá
É Carnaval, é capoeira
O meu saquê é de primeira
Bateu Tambor-Taiko para marcar
Sou pé-vermelho nesta festa popular
(Autores: Benevides e Puninho)

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