Jair Rodrigues faz aniversário hoje. E por uma dessas coincidências do destino, os 66 anos do cantor paulista serão comemorados em Londrina com direito à festa e, quem sabe, corinho de ''Parabéns a Você'' vindo do público. Ora, ele está na cidade por conta do show que faz logo mais, às 20h30, no Autódromo Ayrton Senna, novamente escolhido para abrigar o carnaval de rua local. A apresentação acontece antes dos desfiles das quatro escolas de samba do grupo A. O patrocínio é do Sercomtel e a renda das bilheterias será revertida a entidades beneficentes apoiadas pelo Provopar. A promoção é da Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a Liga das Escolas de Samba.
Por sua vez, o aniversariante promete um espetáculo em que não vão faltar sambas e muitas marchas carnavalescas algumas eternizadas por ele , além de sucessos emplacados em 43 anos de carreira. ''Vai ser um show pra cima'', afirma Jair Rodrigues. E como é que vai ser a comemoração do aniversário? ''Ah, arranjo uma mesinha, um cantinho e canto 'Parabéns a Você'' pra mim mesmo'', responde bem-humorado.
Quem já viu, sabe da alegria que Jair espalha além da voz primorosa, a interação com a platéia estabelece-se com facilidade. No repertório, devem constar hits como ''Triste Madrugada'' (Jorge Costa), ''Tristeza'' (Niltinho-Haroldo Lobo), um bloco de marchinhas carnavalescas, outro tanto de sambas da pesada e, claro, ''Disparada'' e ''Deixa isso pra lá'' e dá-lhe mãozinhas pra lá e pra cá.
Se o clima permitir, ele deve atacar também com ''Majestade, o Sabiá '' (Roberta Miranda), clássico sertanejo gravado por ele na década de 80. Para acompanhá-lo foram convocados os seguintes músicos: Paulo Dafilin (violão), Ary Dias (bateria), Carlos Creck (baixo), Marcelo Maita (teclado), Rubinho (percussão) e Marinho (cavaco).
Mas a ênfase será mesmo o samba.''Eu não me considero um sambista, sou intérprete. Claro que de todos os ritmos eu gosto mais do samba, mas como cantei na noite não podia me especializar num só gênero'', esclarece. Mesmo com tais argumentos, ele se orgulha de ter sido, ''graças a Deus'', o primeiro intérprete a gravar um samba-enredo, no caso ''Bahia de Todos os Deuses'', em 1968, e emplacar. ''Antes só me rotulavam de sambista e dos meus discos só tocavam os sambas e ignoravam outros gêneros como forró, serestas, sertanejos'', explica. A discografia é composta por mais de 40 títulos. O mais recente é ''A Nova Bossa Por Jair Rodrigues'', projeto especial em que relê verbetes da Bossa Nova e da música brasileira (Adoniram Barbosa, por exemplo).
Paulista de Igarapava, Jair Rodrigues de Oliveira lançou o primeiro disco (em 78 rpm) em 1962, com duas músicas para a Copa do Mundo do mesmo ano: ''Brasil Sensacional'' e ''Marechal da Vitória''. A projeção nacional e internacional viria dois anos depois com ''Deixa Isso pra Lá'' (Alberto Paz/ Edson Menezes), carro-chefe de seu repertório. ''As pessoas que entendem do assunto dizem que com essa música eu posso ser considerado o precursor do rap no Brasil'', gaba-se. É, pode ser!
A canção, popularizada graças também à coreografia com as mãos criadas por ele, foi o início de uma trajetória bem-sucedida marcada por fatores que conspiraram positivamente. Entre eles, o encontro com a intérprete mais completa e complexa da Música Popular Brasileira: Elis Regina. O primeiro contato, recorda-se Jair, ocorreu em 1965 no antológico ''Almoço com as Estrelas'', programa da extinta TV Tupi, comandado pelo casal Airton e Lolita Rodrigues. Os dois cantaram a capela (só voz) Elis em ''Deixa Isso Pra Lá'' e Jair em ''Menino das Laranjas'' e improvisaram, reconheceram-se, enfim, convergiram-se.
Predestinados, talvez, formariam uma dupla que faria história na MPB. ''Um mês depois, acho que nem isso, eu e a Elis estreávamos no Teatro Paramount, exatamente no dia 8 de abril de 1965. Foram três espetáculos'', informa. O encontro rendeu o disco ''Dois na Bossa'', volumes 1, 2 e 3 e o mítico programa ''O Fino da Bossa'', na TV Record de São Paulo.
Nos bastidores uns e outros vislumbravam algo mais na amizade entre Jair e Elis.''Muita gente achava que éramos namorados. Que nada, Elis era minha irmã! Diziam que era uma mulher difícil de conviver. Não comigo! A melhor recordação que tenho dela era a amizade sincera tanto no palco quanto fora'', comenta.
A exemplo de Elis, Jair Rodrigues também consagrou-se nos festivais de música, mais precisamente por defender e ganhar ''Disparada''. Era 1966, e a canção de Geraldo Vandré e Théo de Barros ganhava o prêmio máximo do II Festival de Música Popular da TV Record, que teve que ser repartido com ''A Banda'' (Chico Buarque), interpretada por Nara Leão, também classificada em primeiro lugar. Um empate questionável, diga-se.
Esses e outros fatores contribuiram para elevar Jair Rodrigues ao primeiro escalão da música brasileira, ainda em plena e absoluta atividade. O artista acaba de gravar seu mais novo disco, com lançamento previsto para maio ou junho. Ainda sem título, e em fase de mixagem, o álbum deverá ter 14 faixas, das quais dez inéditas, com direito a convidados ilustres: os filhos Jair Oliveira (no samba-bossa ''O Ex-Vagabundo'', composição própria) e Luciana Mello (no samba-afro ''Alma Negra'', de Lula Barbosa), além de Altemar Dutra Filho (no bolero ''Esquina do Brasil'', de Evaldo Gouveia e Fausto Nilo). As regravações ficam por conta de compositores incensados como Ary Barroso e Paulinho da Viola.
E assim, Jair Rodrigues vai cumprindo com dignidade o ofício de intérprete, ciente dos metros quadrados conquistados na área musical. Num país com memória espanada, ele atribuiu a longevidade artística a um só motivo: ''Luta meu irmão, muita luta. Eu nunca fiquei esperando nada cair do céu a não ser chuva''.
Entre bom humor e sabedoria, Jair vai marcando seu tempo e contratempo.

* Serviço
- Show com Jair Rodrigues. Hoje, às 20h30, no Autódromo Ayrton Senna, dentro da programação do carnaval de rua de Londrina. Patrocínio: Sercomtel. A apresentação acontece antes dos desfiles das escolas de samba do grupo especial. Ingressos a R$ 3,00 e R$ 1,50 (estudantes e idosos). Crianças até 12 anos, acompanhadas dos pais ou responsáveis, não pagam. Os ingressos podem ser adquiridos nas bilheterias do Autódromo. Toda a renda será revertida para instituições beneficentes apoiadas pelo Provopar.

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