CARNAVAL - Um museu aberto à fantasia
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba O estilista e carnavalesco Ney Souza quer criar o Museu da Moda e do Carnaval em Curitiba. Acervo ele tem. São cerca de 30 fantasias de luxo e mais de 3 mil peças originais que contam a história da moda ao longo dos séculos. A peça mais antiga é datada de 1860, passando por vestidos de noivas e enxovais dos anos 1900, até leque, chapéus, sombrinhas e bolsas. As peças foram compradas ou doadas a Souza ao longo de sua carreira, que só como canavalesco já dura quatro décadas. Agora, ele procura patrocínio para expôr todo esse material em condições à altura da importância do acervo. ''O local ideal seria um espaço climatizado, mas ainda não consegui patrocínio'', lamenta.
A luta pelo espaço atravessa gestões municipais e estaduais, mas Souza não pensa em desistir: ''Eu não quero deixar que esse material se perca porque é muito valioso. Hoje os estudantes de moda não sabem bem como era feita uma roupa antigamente, por exemplo, e por meio desse material é possível contar toda essa história'', revela. A paixão de Souza pela moda começou há muito tempo, depois que ele se mudou de Prudentópolis, onde nasceu, para a capital paranaense. Em Curitiba estudou num tradicional colégio católico, até decidir que queria seguir a carreira dentro da alta costura. ''Esse termo ainda nem existia, assim como não exisitam faculdades de moda no País'', lembra.
Por isso embarcou para Buenos Aires, na Argentina para estudar a história da arte e da moda. Já faz tempo, mas Souza, prefere não citar datas. ''Não pergunte sobre o tempo, só conte a história'', brinca. Depois de estudar em território argentino voltou para Curitiba para montar um dos primeiros ateliês de alta costura do Paraná. Fazia figurinos para teatros e vestidos de noivas, além de roupas para festas, até que a vontade de criar falou mais alto. ''Foi quando eu comecei a fazer fantasias para o Carnaval e a participar de concursos. Aliás, aconteceu em Curitiba um dos primeiros concursos de fantasia do Brasil'' - lembra, citando uma época em a festa popular já foi bem mais glamourosa na capital.
Souza perdeu a conta de quantos concursos de fantasia participou e quantos prêmios recebeu, mas certamente ele figura na lista dos carnavalescos mais conceituados no Brasil. Já confeccionou fantasias para as principais escolas de samba e inclusive recebeu convites para se mudar para o Rio de Janeiro ou São Paulo, mas nunca aceitou. ''Eu fiz carreira na alta costura aqui e meus clientes estão aqui. Eu não podia deixar tudo para trás para começar de novo'', revela.
Atualmente, ele não está mais tão atuante no Carnaval, mas mesmo assim vai desfilar este ano na Mangueira e na escola Brincar Para Não Chorar, de Antonina. ''Estou me dedicando mais a encontrar patrocínio e apoio para montar o museu'', diz. As peças, guardadas pelo estilista, são acondicionadas uma a uma em papel de seda e periodicamente são retiradas da embalagem para que suas condições sejam conferidas. ''É um acervo muito delicado e que precisa de muitos cuidados. Seu valor em dinheiro é inestimável'', explica.
Entre as pérolas do acervo ele destaca um vestido de noiva de 1912, cuja nota de compra ainda está conservada, além do enxoval da própria avó, mas a nenhuma, segundo Souza, ele dedica apreço especial: ''Para mim são todos valiosos''. diz. A data das peças se estende até as datas atuais. Souza, aliás, avalia a moda atualmente: ''Que coisa feia!'', brinca. Para ele, a criatividade se esgotou. ''Não existe como criar nada de novo, a moda é algo que se recicla de 30 em 30 anos. Pode olhar para trás que o que era moda há três décadas vai voltar hoje. Veja os vestidos longos que estão sendo usados hoje...'', exemplifica.


