Para eles, Carnaval sempre foi assunto de família. O negócio é que, de alguns anos para cá, cada um foi para seu lado. Pai e filha separados pelo samba? Só na avenida. É, foi isso que aconteceu com o compositor Joaquim Braga, 52, e a filha, a porta-bandeira Patrícia Braga, 28. Ele defende a Quilombo dos Palmares. Ela, a Garotos Unidos Londrinenses. Os dois garantem não ter rivalidade. Só defesa de bandeira...
Mas a história não começou assim. Patrícia cresceu na escola do pai. Desde a fundação da agremiação na Zona Norte, em 1984, ela já desfilava na ala infantil. Depois foi presidente e porta-bandeira da escola-mirim. A menina assumiu o posto de primeira porta-bandeira aos 13 anos, e brilhou até o Carnaval de 2000. ''Ela teve uma trajetória linda como porta-bandeira nota 10'', elogia o pai.
No ano seguinte, um caso de doença na família afastou pai e filha do Carnaval e nenhum deles pôde desfilar. ''Naquele ano, perdi a bandeira'', lamenta Patrícia. ''Chorei muito''. O pai relembra que a diretoria da Quilombo até ofereceu uma outra função à Patrícia, o que não deu certo.
Em 2002, ela foi convidada pela Garotos Unidos para formar com o Mestre Edilson o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola da Zona Sul. ''Tiramos nota 10, no ano em que a escola foi campeã'', comemora.
A Quilombo dos Palmares, que completa duas décadas de existência, vai homenagear muitos nomes que passaram por lá. Patrícia foi uma das convidadas para desfilar. ''Não tive condições de aceitar. Sabe o que é? Sou fascinada pela bandeira da minha escola''.
A porta-bandeira está empolgada com o desfile da Garotos Unidos, que esse ano defende o enredo ''Contos e Lendas da Amazônia''. ''Minha fantasia nova vai ter mais de mil penas e será azul e prata. Foi elaborada pelo carnavalesco Sérgio, de Parintins (AM)''. E o figurino tem uma novidade que agradou a porta-bandeira: será bem mais leve, o que ajuda na performance. ''As fantasias costumam ser bem pesadas. A minha tinha 15 quilos'', diz.
Como porta-bandeira da Garotos Unidos, Patrícia Braga diz ter conseguido muitos avanços. ''A gente se prepara muito. Nos últimos anos, fiz uma oficina com um pessoal do Rio de Janeiro, tive aulas de expressão facial, tudo para me aperfeiçoar. A porta-bandeira precisa ter graça, leveza, simpatia e postura para, junto com o mestre-sala, apresentar da melhor forma a bandeira''.
Joaquim Braga também reserva tempo para seus preparativos para o Carnaval. Além de compositor, ele é puxador de samba e vem se preparando para entrar com tudo no desfile. O principal é o cuidado com a voz. ''É como se eu me preparasse para uma competição esportiva. Ensaio todos os dias e tenho que tomar cuidado com as cordas vocais. Na hora do desfile, tenho 50 minutos de samba pela frente, além dos minutos de aquecimento. Preciso estar pronto'', conta. ''A gente se prepara durante meses para 50 minutos de emoção''.
Braga é um dos fundadores da Quilombo dos Palmares. Também já desfilou por uma escola de samba de Santos, no litoral paulista, e cantou no pavilhão da Mangueira, no Rio de Janeiro. O compositor ficou três anos afastado de sua escola (2001 a 2003), mas a paixão pela verde-e-rosa londrinense foi maior. Este ano, ele compôs o samba-enredo ''A Quilombo conta seus 20 anos de história e canta seus anos de glória''. Para Braga, um dos orgulhos de sua escola é ter trabalhado com crianças nesses anos todos. ''Nosso desfile vai trazer muita gente que veio da escola-mirim, na qual a própria Patrícia se formou. Hoje eles são o alicerce da escola adulta''.
Longe do Carnaval, Braga e Patrícia são, respectivamente, professor de inglês e técnica de enfermagem. Mas também arrumam um tempinho para praticar seus talentos artísticos: ambos participam do Coral Unicanto e ele comanda o grupo musical A Voz do Samba. Só que, quando o assunto volta a ser Carnaval... eles também estão de lados opostos na torcida pelas escolas de samba do Rio de Janeiro. Braga é Mangueira e Patrícia, Caprichosos de Pilares. E é essa paixão que deve levá-los para longe do Carnaval londrinense em 2006. ''Ela gosta de desfilar aqui, mas tem o sonho de conhecer o Carnaval carioca. Em 2006 vamos assistir ao desfile do Rio'', afirma o pai.
E Patrícia? Vai perder a bandeira de novo? ''É, vai ser uma escolha. Mas vamos continuar trabalhando pelo Carnaval da cidade'', afirma. E já tem mais gente da família trilhando sua trajetória carnavalesca. Aos 13 anos, Luiza filha de Braga e irmã de Patrícia já é princesa da bateria.

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