Rio - A possibilidade de os incidentes que prejudicaram o desfile da Portela terem sido provocados por sabotagem não foi descartada pelo novo presidente da agremiação, Nilo Figueiredo. Indagado sobre a hipótese, ele disse que já havia ‘‘pensado em tudo’’. Em seguida, abriu um sorriso e seguiu para o camarote. Na véspera do desfile, um carro alegórico da Portela pegou fogo. Minutos antes da apresentação, as asas da águia do abre-alas quebraram. E no decorrer da passagem da escola, o motor do último carro falhou, logo no início da Marquês de Sapucaí. Nele viriam 21 componentes da Velha Guarda, que não puderam desfilar.
Um dos nomes mais tradicionais da Portela, o compositor Paulinho da Viola, endossou o discurso. Ele se disse surpreso com as coincidências. ‘‘Além de tudo isso, o cronômetro do sambódromo já marcava quatro minutos de desfile quando ainda estávamos no esquenta. Também achei que havia muito tumulto na concentração, no momento em que tentávamos reparar alguns problemas’’, declarou. ‘‘O que aconteceu é, no mínimo, muito azar ou muito estranho’’, definiu Paulinho.
Segundo contou o compositor, Nilo Figueiredo achava ser possível recuperar as asas da águia rapidamente. E o presidente não teria entendido o porquê de o tempo de desfile ter sido antecipado em alguns minutos. Em 2004, o dirigente conseguiu derrotar em eleição tumultuada o grupo do bicheiro Carlinhos Maracanã, muito bem relacionado com a cúpula da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa).
A confusão acabou em drama. Tudo porque a Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio, deixou de fora de seu desfile na Marquês de Sapucaí justamente sua tradição: por causa do defeito no carro que traria a Velha Guarda, os mais antigos integrantes da agremiação foram impedidos de passar pela avenida. A ordem foi de Nilo Figueiredo. Os antigos ritmistas passaram pela Sapucaí já sem som.
Nilo Figueiredo assumiu que barrou mesmo a Velha Guarda. ‘‘Eu impedi que o carro entrasse. O que queriam que eu fizesse? O carro quebrou, foi azar.’’ Os sambistas, ao verem o portão ser fechado deixando-os para trás, ficaram atônitos. Tia Surica e tia Doca, dois baluartes portelenses, caíram em prantos e tiveram de ser carregadas pela equipe de apoio. ‘‘Eu fiquei muito chateada, mas não decepcionada, porque sou Portela até o fim’’, afirmou Surica. ‘‘Vocês não imaginam como foi difícil para a família portelense botar esse desfile na rua e dar no que deu.’’ Tia Doca pressentiu que o desfile não acabaria bem: ‘‘Na concentração, eu estava sentindo um aperto no coração.’’
O compositor Walter Alfaiate, que sai na Portela desde 1978, foi afogar as mágoas no camarote da Brahma. Às 5 horas, ele bebia sozinho numa mesa. ‘‘Eu pressenti que ia acontecer isso. Tinha muita gente que não podia estar ali, tem que ter um limite. Quantidade não é qualidade, tinha 5 mil e cacetada. Eu alertei antes, mas não adiantou. Foi decepcionante.’’ Em outra mesa do camarote, a cantora Teresa Cristina chorava.

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