CARNAVAL - Duas vidas dedicadas ao samba
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de fevereiro de 2005
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Valdemira Alves Rodrigues tem 66 anos, mora no Jardim Shangri-lá B (Zona Oeste) e teve cinco filhos. Sônia Regina Gomes, aos 41, vive no Jardim Paraíso (Zona Norte) e é mãe de nove. Em comum, essas duas mulheres têm o fascínio pelo Carnaval. Fazem tudo pelos desfiles de suas escolas, inclusive abrir a porta das próprias casas. Atualmente, ambas estão na linha de frente do Carnaval de Londrina. Valdemira, ou dona Mira, é vice-presidente da Gaviões Londrinenses, campeã do grupo A no ano passado. Sônia é a presidente da Explode Coração, também campeã em 2004, no grupo B, e que agora estréia no grupo principal.
Envolvida com Carnaval há 20 anos, dos quais 12 dedicados à Gaviões, dona Mira assistirá em 2005 a um desfile marcado pela homenagem ao marido, Orivaldo Rodrigues, fundador da escola falecido em julho de 2004. O samba-enredo ''O que é o amor? Amor não se define: amor se dá, amor se vive, amor se divide'' solta o Cupido da folia em homenagem a ele, um apaixonado por Carnaval.
Ex-garçom e maitre no Rio de Janeiro e São Paulo, Orivaldo Rodrigues chegou em Londrina em 1952. Aqui conheceu e se casou com dona Mira. Anos mais tarde, passou a se dedicar ao Carnaval. E levou junto quase toda a família. Um dos filhos do casal, Edward, é o atual presidente da escola.
Dona Mira nunca entrou na pista para desfilar, mas acompanha todas as atividades da escola. Ela ajuda na confecção de fantasias e adereços, faz comida para um monte de gente, prepara o cafezinho (um quilo de pó é consumido por dia) e limpa toda a casa, que nessa época é literalmente invadida. Sem contar as fantasias e adereços que ocupam um quarto inteiro. Na verdade, no resto do ano o local também funciona como uma espécie de ''depósito'' do material dos desfiles.
Circulam pela casa cerca de 20 pessoas, que almoçam lá todo dia. Antes de receber a reportagem, dona Mira lavava a louça. ''Isso aqui eu termino logo. Daqui a pouco tem que fazer café. É todo dia assim. Nunca durmo antes de uma, duas horas da manhã'', conta.
Como viúva do homenageado, dona Mira vai para o desfile com o coração apertado. ''Vou só assistir. Optei por controlar a emoção. Sou hipertensa e acho que me emocionaria muito na pista. Vou tentar controlar da arquibancada'', diz.
Para ela, o Carnaval sempre será algo especial. ''Eu amo de paixão. É cultura e distrai as pessoas, afastando um pouco dessa violência'', opina. Mas, apesar de apreciar a casa cheia de gente no Carnaval, dona Mira tem um pedido. ''As escolas precisam de um barracão. Dá muito trabalho guardar tudo em casa. Os empresários locais bem que poderiam emprestar esses espaços que ficam o ano inteiro fechados. É preciso resgatar uma coisa que também é da cidade. O Carnaval de Londrina cresceu muito e tem credibilidade''.
Sônia Regina Gomes também tem história no Carnaval. São 29 anos de folia, enfrentando barreiras e superando dificuldades. Começou criança, na Bahia Abraça Londrina, na Vila Nova. Hoje tem sua própria escola, a Explode Coração. Essa trajetória começou com a fundação da Unidos do Jardim do Sol em 1982 por primos e irmãos de Sônia. ''Ficamos nessa escola até 1991, quando mudamos para Cambé e montamos a Explode Coração. Voltamos para Londrina e, em 2003, participamos do primeiro desfile no grupo B, ficando em último lugar. No ano seguinte, fomos campeões''.
Mas Sônia não é apenas uma das fundadoras da escola. Foi rainha da bateria da Unidos do Jardim do Sol e do Londrina Country Club. Já no Jardim Paraíso, ensinou a garotada a tocar na bateria, hoje comandada pelo primo, o Mestre Bailarina. E tem mais: Sônia arruma tempo para ser alegorista. ''Tem que colocar a mão na massa ou a coisa não anda. Quando é preciso eu também vou para a cozinha e faço comida para as 25 pessoas que almoçam aqui'', conta.
A moradora do Jardim Paraíso é mais uma que perde a casa durante o Carnaval. Ou melhor: disponibiliza os cinco cômodos para os preparativos da festa. ''A gente não tem casa nessa época. Um dorme na sala, outro nem dorme''. Tem os que se ajeitam no meio das fantasias e adereços. E tudo é só uma parte do material confeccionado. A Explode Coração ainda alugou outra casa em frente à de Sônia e um barracão.
Rodeada de crianças, entre elas filhos e netos, Sônia diz que a garotada vai estar em peso no desfile deste ano, já que a escola tem como tema ''O Mundo Encantado das Crianças no Reino da Alegria''. ''Aqui de casa só não vão desfilar os dois filhos mais velhos, que são evangélicos, e o de três anos, que ainda não tem idade''.
Afro-cabeleireira, Sônia ainda divide o tempo escasso do período pré-carnavalesco com a agenda das clientes. ''Deixei o serviço um pouco de lado agora, mas sempre arrumo um tempinho. Carnaval é só uma vez por ano!'', comenta. E, nem que seja tanto esforço por um único dia de desfile, vale a pena. ''O Carnaval muda minha vida. Nessa época esqueço dos problemas, some tudo. Não consigo controlar a emoção. Mas este ano estou um pouco mais devagar'', assume Sônia, que há três anos sofreu um enfarte um mês antes e nem por isso deixou de sair no Carnaval.


