A vontade era de não se deixar levar pelas regras (ou seriam etiquetas?) que espetáculos como esses exigem (ou veladamente impõem?) e aplaudir e gritar ‘‘bravo’’ em plena cena aberta. Mas nos contivemos. Sei lá o que deu em nós, londrinenses passionais por natureza, mas nos contivemos mesmo quando a emoção se insinuava mais forte - fosse nos vibratos tecnicamente perfeitos dos coros, nas performances arrepiantes dos bailarinos e atores (gente nossa, gente nossa), na elegância discreta e competente do grupo de percussão ou ao simples levantar e abaixar da batuta do maestro.
Contivemo-nos com muito esforço porque as palmas em determinado trecho do espetáculo poderiam nos privar de algo mais comovente que viria logo em seguida. Se alguém soltasse um ‘‘clap’’ ou outro som onomatopaico que sugerisse reverência, o espetáculo teria que ser recomeçado. Se tivéssemos flores separaríamos um punhado para jogar aos pés do barítono Sebastião Teixeira, dono de uma sagrada e abençoada voz. Faríamos um auê, ou dois ou três ou mais em cena aberta. Demonstraríamos, sem vergonha nenhuma, nossa passionalidade.
Resultado: nos seguramos tanto que ao final do espetáculo, inchados de tantas cores introduzidas através de nossos olhos, ouvidos e poros, não nos aguentamos e retribuímos tamanha maravilha com intermináveis rajadas de palmas. E gritos. E mais palmas. E gritos. E palmas. E mais palmas. E mais gritos. Queríamos, com nossa até então enrustida manifestação de bem-querer e bem-estar, que todos os deuses ouvissem o quanto nós estávamos carentes de um espetáculo grandioso. Um espetáculo à altura de nossas emoções vermelhas.
Aplaudimos a montagem de ‘‘Carmina Burana’’, com prazer. Com muito prazer. Queríamos acordar deuses e o mundo. Queríamos fazer acordar senhores de bolso grande e braços curtos - ou senhores e senhoras com visão míope e, consequentemente, despreparados para enxergar mais além - que teimam em achar que cultura é um gênero de segunda necessidade.
Com palmas e gritos a ‘‘Carmina Burana’’, belíssima e memorável montagem, realizada nos últimos sábado e domingo, queríamos deixar bem claro que nós, londrinenses de alma e pés vermelho, como o imenso pano encarnado no fundo do palco, merecemos grandiosas e garbosas e glamourosas produções como a que a Vivarte Produções Artística nos proporcionou.
Gostamos de aplaudir o belo. Gostamos muito do que é belo. E a encenação da cantata ‘‘Carmina Burana’’ (Carl Orff), concebida pelo iluminado Marco Antonio de Almeida, foi bela. Há tempos não pronunciávamos com ardor e sinceridade a palavra ‘‘belo’’. Dois dias de espetáculos, casa cheia, bilheteria esgotada. Os 115 artistas fizeram sua parte. Nós, o público, fizemos a nossa. Fomos.
Fomos com a alma desarmada ao local em que ‘‘Carmina Burana’’ foi montada. O local precisou ser adaptado para que todo o elenco pudesse crescer. Foram retiradas três fileiras de poltronas. Três fileiras que poderiam abrigar cerca de cem sedentas pessoas para assistir à ‘‘Carmina Burana’’. Essas quase cem pessoas voltaram para casa com sede. Confortaram-se um pouco em saber que ‘‘Carmina Burana’’ foi um marco em termos de espetáculo, em Londrina.
O local é nosso velho e querido Cine-Teatro Ouro Verde. O nosso Cine-Teatro que dá sinais de cansaço físico - já não pode abraçar e erguer bem alto eventos de grande porte. O velho Cine-Teatro mesmo com seus músculos lassos abrigou a montagem digna, soberba, garbosa e, principalmente comovente, de ‘‘Carmina Burana’’.
Nós, o público, que fomos ao CINE-teatro Ouro Verde retribuímos a realização de ‘‘Carmina Burana’’ com uma saraivada de palmas. Uma pena que nós, público, não podemos dizer mundo afora que tão digna montagem não foi realizada no tão prometido TEATRO Municipal de Londrina.

mockup