Carmen transexual
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Por desconhecimento, moral ou comodismo o homem viciou-se a olhar no espelho por um único ângulo da face, como se ele fosse o todo. O ator e coreógrafo mineiro, Antônio Mello, tomou a si o encargo de trabalhar com espetáculos que, de algumna forma, mexem com esses terrenos nem sempre refletidos. Carmen, que ele traz para o 8º Festival de Teatro de Curitiba - que começa no próximo dia 18 - faz parte dessa série.
Embora tome como ponto de partida a famosa ópera de Bizet, o coreógrafo não segue os passos da cigana sedutora, que derruba os homens à sua volta. Em seu contexto as Carmens são as almas femininas nos corpos dos transexuais, e a estranheza que isso causa àqueles que estão à sua volta.
É aqui que o espelho se quebra, negando-se a ver a extensão humana. O tema é pouco tocado, porque é cercado de tabu. Meu interesse é destrinchá-lo, disse Mello para a Folha2. Nesta montagem fala-se da hipocrisia da sociedade frente ao que é diferente, tomando como referência a obra de Bizet.
Antonio Mello vive o papel do transexual num solo puramente corporal. O espetáculo exige muito de si, fisicamente falando. Quase todo o tempo estou em movimento. Se não estiver legal, não dá para aguentar a onda. Os 20% restantes são ocupados por algumas árias que ele interpreta, ou textos retirados de livros de poemas e com depoimentos de transexuais, pinçados dos jornais.
Carmen foi concebido para falar da dificuldade que existe em se reconhecer o outro, neste caso o diferente. Se a platéia se reconhecer na dificuldade vivida pelo próximo, Antonio conseguiu seu objetivo. Estarei satisfeito, afirmou.
Seu interesse é sempre o de desmoronar alguma coisa dentro da pessoa, fazendo-a refletir sobre o que viu, seja em Salomé, de Oscar Wilde, ou O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, como na Missa das Dez, com textos de Adélia Prado. Quero que o espectador se assuste com ele próprio. Todo trabalho que faço tem um teor provocativo, para que alguma coisa aconteça.
Carmen faz um passeio pelas almas aprisionadas, que querem passar a imagem da mulher sem falhas, superlativa. Exteriormente tem-se a purpurina, interiormente o que existe é algo patético, quase frágil, segundo seu criador. O que ele quer é documentar esse traço, conforme sua explicação:
- A minha Carmen é absolutamente dramática, feita de conflitos dramáticos. Então meu espetáculo é de pouca fala; priorizei a dramaturgia corporal. O corpo diz tudo ao espectador. Aliás, meu trabalho é sempre voltado a tocar naquilo que é dito poucas vezes. Esse tipo de temática sempre me atraiu.


