Por desconhecimento, moral ou comodismo o homem viciou-se a olhar no espelho por um único ângulo da face, como se ele fosse o todo. O ator e coreógrafo mineiro, Antônio Mello, tomou a si o encargo de trabalhar com espetáculos que, de algumna forma, mexem com esses terrenos nem sempre refletidos. ‘‘Carmen’’, que ele traz para o 8º Festival de Teatro de Curitiba - que começa no próximo dia 18 - faz parte dessa série.
Embora tome como ponto de partida a famosa ópera de Bizet, o coreógrafo não segue os passos da cigana sedutora, que derruba os homens à sua volta. Em seu contexto as Carmens são as almas femininas nos corpos dos transexuais, e a estranheza que isso causa àqueles que estão à sua volta.
É aqui que o espelho se quebra, negando-se a ver a extensão humana. ‘‘O tema é pouco tocado, porque é cercado de tabu. Meu interesse é destrinchá-lo’’, disse Mello para a Folha2. ‘‘Nesta montagem fala-se da hipocrisia da sociedade frente ao que é diferente, tomando como referência a obra de Bizet.’’
Antonio Mello vive o papel do transexual num solo puramente corporal. O espetáculo exige muito de si, fisicamente falando. ‘‘Quase todo o tempo estou em movimento. Se não estiver legal, não dá para aguentar a onda.’’ Os 20% restantes são ocupados por algumas árias que ele interpreta, ou textos retirados de livros de poemas e com depoimentos de transexuais, pinçados dos jornais.
‘‘Carmen’’ foi concebido para falar da dificuldade que existe em se reconhecer o outro, neste caso ‘‘o diferente’’. Se a platéia se reconhecer na dificuldade vivida pelo próximo, Antonio conseguiu seu objetivo. ‘‘Estarei satisfeito’’, afirmou.
Seu interesse é sempre o de ‘‘desmoronar’’ alguma coisa dentro da pessoa, fazendo-a refletir sobre o que viu, seja em ‘‘Salom钒, de Oscar Wilde, ou ‘‘O Primo Basílio’’, de Eça de Queiroz, como na ‘‘Missa das Dez’’, com textos de Adélia Prado. ‘‘Quero que o espectador se assuste com ele próprio. Todo trabalho que faço tem um teor provocativo, para que alguma coisa aconteça.’’
‘‘Carmen’’ faz um passeio pelas almas aprisionadas, que querem passar ‘‘a imagem da mulher sem falhas, superlativa’’. Exteriormente tem-se a purpurina, interiormente o que existe é algo patético, ‘‘quase frágil’’, segundo seu criador. O que ele quer é documentar esse traço, conforme sua explicação:
- A minha Carmen é absolutamente dramática, feita de conflitos dramáticos. Então meu espetáculo é de pouca fala; priorizei a dramaturgia corporal. O corpo diz tudo ao espectador. Aliás, meu trabalho é sempre voltado a tocar naquilo que é dito poucas vezes. Esse tipo de temática sempre me atraiu.

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