CARMEN REQUEBRA NO PALCO
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segunda-feira, 05 de junho de 2000
Francelino França De Londrina 
A mulher mais volúvel do teatro lírico, a cigana Carmen, ganha uma releitura brasileira. Carmen Sambópera, adaptação sobre a novela de Prosper Mérimée e da ópera de George Bizet, chega ao Filo 2000 embalada pelas referências rítmicas brasileiras. O multicultural diretor Augusto Boal (criador da metodologia de interpretação conhecida como Teatro do Oprimido), numa insistente busca por uma linguagem brasileira, inaugura um novo gênero, mestiçando melodias européias e ritmos afros.
O Sambópera se traduz num novo gênero musical em que a intertextualidade rítmica e melódica entre as grandes óperas e a sonoridade brasileira se convergem. Carmen Sambópera é um espetáculo musical em que prevalece o equilíbrio entre música e teatro. No palco do Cine-Teatro Ouro Verde, hoje e amanhã, às 21 horas, 13 atores-cantores acompanhados por seis músicos, contam a tragédia no embalo do baião, samba, maracatu e modinha imperial. Segundo o diretor, o Sambópera é a restauração da dramatização da ópera.
Os idealizadores do espetáculo Augusto Boal, Marcos Leite e Celso Branco pretendem dar continuidade a esse gênero musical abrasileirado, pondo para requebrar em breve La Traviatta e o Barbeiro de Sevilha. A Sambópera pretende descobrir um novo musical brasileiro, com fortes características do teatro de revista, somados às fórmulas do musical americano e da ópera tradicional. Mas o ingrediente inconteste de nossa brasilidade é o humor.
Carmen, primeiramente concebida como novela por Prosper Mérimée, na versão para a Operá Comique de Paris, por Georges Bizet, ultrapassou fronteiras em todo o mundo, em incontáveis versões da obra-prima. Carmen se transformou no arquétipo da mulher verdadeira com seus sentimentos, celebrando o mistério da mulher. Incontáveis versões desse modelo feminino se espalham pela vida (real ou imaginária). Mais próximos do nosso inconsciente, como Gabriela, de Jorge Amado, e a estrela Leila Diniz. O multiculturalismo já existia na história escrita por um francês que visitava a Espanha, rodeado de influências árabes.
A cadência do Sambópera Carmen existe porque Boal segue Bizet. Procuramos extrair a essência musical de Bizet e trazer para cá. A ópera Carmen foi toda reescrita através da ótica brasileira. Reescrevi compasso por compasso, explica Marcos Leite, diretor musical do espetáculo.
A diferença é a pompa do glamour e a orquestração, diz. Enquanto o músico francês trabalhava com 80 músicos, nossa versão recorre ao jeitinho brasileiro, arregimentando seis músicos. Carmen, Sambópera é um musical com a cara do Brasil, segundo Leite, mas sob a luz de um microscópio, o DNA de Bizet está sequenciado nessa versão de Boal.
Canção do Toureiro (toreador), na roupagem tupiniquim se transformou em Goleador. Afinal, um goleador não deixa de atacar e um estádio de futebol é uma arena. Habanera (Ato I) ganhou rodopios de tango com requebros de samba. E Seguidilla (Ato I), segue os compassos do samba.
Celso Branco, juntamente com Boal é responsável pela tradução e adaptação, recuperou pontos que os libretistas franceses (Henri Meilhac e Ludovic Halévy) haviam ignorado na época (1875). A novela original era abertamente trágica, a mulher fatal, além de sedutora era assassina e prostituta. Musicalmente falando, Leite inseriu trechos que não estavam na partitura de Bizet. Além disso, foram suprimidos os chamados preparativos de cada cena. Por isso, a Carmen brasileira mantém o arquétipo de sensualidade, porém com um dinamismo evidente.
Entre os pontos de convergência entre as obras de Bizet e Boal estão a espontaneidade, a variedade de melodias e a viva penetração nos sentimentos das personagens. Carmen Sambópera será apresentada no próximo mês no Pallais Royal em Paris, durante o Festival Internacional de Teatro, na capital francesa.


