São Paulo, 03 (AE) - Não há dúvida: 1999 será mesmo o ano Carmem Miranda. Apesar de lançamentos de livros, retrospectivas de filmes e homenagens terem lotado a agenda cultural em fevereiro, quando se completaram exatos 90 anos de seu nascimento, Carmem será lembrada ao longo de todo o ano.
Quinta-feira, no conjunto cultural da Caixa Econômica Federal, inicia-se a exposição "Carmem Miranda Fashion", com imagens dos figurinos usados pela artista. Até o fim do ano, estréia o espetáculo musical que está sendo escrito por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. O cantor Eduardo Dusek apresenta desde março, no Rio, o show biográfico "Adeus Batucada". Até dezembro, Dusek completa seu trabalho e, no embalo, lança o songbook de Carmem.
Um novo filme, "A Pequena Notável", está sendo anunciado. Seu produtor, Aníbal Massaini, tem pronta a primeira versão do roteiro e encontra-se em fase de captação de recursos. "O texto foi enviado ao especialista Syd Field, nos Estados Unidos, e retornou com algumas sugestões", diz Massaini. O parecer deverá orientar o próximo tratamento do texto, a ser feito por Lauro César Muniz, autor do roteiro original.
Um dos pontos sugeridos por Field é o maior aprofundamento sobre a vida afetiva de Carmem, pouco contemplada em suas biografias. Em razão do preço do filme, US$ 18 milhões, Massaini pretende fazer uma co-produção com os Estados Unidos. Por isso ainda não escolheu o diretor, cujo nome pode entrar na negociação. Mas tem uma preferência pessoal: Carlos Manga, cineasta que será sugerido por ele aos eventuais sócios. Há também notícia de que o norte-americano John Eyres pretende rodar um longa-metragem chamado "A Máscara e a Fantasia", enfocando a passagem de Carmem pelos EUA.
Nova biografia da artista, "Taí...Carmem Miranda", deverá estar nas livrarias antes do Natal. Quem a escreve é Iberê Magnani, diretor do museu Carmem Miranda, no Rio. Magnani promete revelar fatos inéditos, baseado em depoimento do médico que cuidava de Carmem poucos meses antes de sua morte.
Mito - A persistência do mito Carmem Miranda continua um mistério. Afinal, ela está morta desde agosto de 1955. Pelo menos duas gerações não a conheceram em vida. Também devem ignorar seus numerosos filmes, a maioria dos quais datada. Podem ter ouvido por aí um ou outro sucesso, como "Camisa Listada", "Pra Você Gostar de Mim" (o popular "Taí"), "Voltei pro Morro", no máximo. São músicas que não tocam mais nas rádios comerciais, com as exceções de praxe.
Seus filmes, como "Alô, Alô Carnaval", "Banana da Terra", "Uma Noite no Rio", "Aconteceu em Havana" ou "Copacabana", em que ela contracena com Groucho Marx, viraram peças museológicas. Raramente são reprisados. A maioria é considerada documento de época e pouco mais.
No entanto, Carmem permanece. Talvez tire sua força da condição de mito ambíguo, ícone da nossa ambivalência diante do País. Carmem nasceu em Portugal, chegou ao Brasil com 1 ano e meio e transformou-se na mais famosa pop star (se o termo existisse) nacional dos anos 30 e 40. Foi justamente com a marchinha "Pra Você Gostar de Mim", de Joubert de Carvalho, que Carmem conheceu seu grande sucesso no início dos anos 30.
Êxito devidamente sedimentado por uma série de músicas populares, como "Carnavá Tá Aí", "Amor, Amor", "Moleque Indigesto", "Alô, Alô", "Isto É lá com Santo Antônio", "Camisa Listada", "Eu Dei", "Quem É?" e muitas outras. O sucesso musical repetia-se no cinema, no rádio e nos espetáculos do Cassino da Urca.
Carmem, já uma figura nacional e conhecida em outros países da América Latina, havia colocado no ponto suas características mais marcantes. Havia a voz e o senso rítmico, que faziam dela uma intérprete privilegiada. Mas é pouco provável que, se houvesse empregado seus dotes de cantora de maneira discreta e sóbria, alguém ainda estivesse falando dela 45 anos depois de sua morte. Para chegar ao topo, Carmem apurou um layout típico: roupas extravagantes, fruteira na cabeça, revirar dos olhinhos, sapatos de plataforma para compensar seu 1 53 m, frenética movimentação gestual em cena - expressão de uma pitoresca "energia" latina.
Não era bem assim que o Brasil, ou parte considerável dele, gostava de se enxergar. Mas foi dessa maneira que Carmem se viu descoberta pelo empresário americano Lee Schubert, que a levou para os EUA e para o sucesso. E também, provavelmente, para a morte prematura. Carmem foi sugada pela indústria e teve o desgosto de ser renegada em uma viagem ao Brasil. Consideraram-na "americanizada", acusação a que ela respondeu com música.
Morreu em 5 de agosto de 1955, pouco depois de participar de um show do comediante Jimmy Durante. Repatriado, seu corpo teve um dos sepultamentos mais espetaculares da história do Rio de Janeiro, como se toda uma população expiasse a culpa de havê-la hostilizado. Em geral mitos tiram sua força de uma história de martírio - real ou imaginária.

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