A Carmen solar – versão cadenciada do dramaturgo Augusto Boal – abalou as convicções cristalizadas dos puristas nas apresentações de ‘‘Carmen - Sambópera’’, levada ao Cine-Teatro Ouro Verde, segunda e terça-feira. Quem esperou encontrar a inconstante cigana reduzida a trejeitos espanholados, se enganou. ‘‘Carmen - Sambópera’’ despertou paixão e ódio, tal qual a personagem eterna de Bizet. O público saiu da apresentação questionando a carioquice exacerbada de algumas cenas. E o que era uma aberração para uns – como a transformação do toureador em craque demolidor – para outros foi um achado.
Mas é preciso analisar essa proposta da busca de uma linguagem musical brasileira atual, não como uma vulgarização da ópera. Essa linha de pensamento acaba supervalorizando a música erudita em detrimento da popular. O mérito de Augusto Boal e sua equipe foi o de aproximar o gênero do grande público, atacando com instrumentos e ritmos próximos da nossa realidade (baião e samba, por exemplo) e, no caso da obra-prima de Bizet, destacaram nossa envolvente musicalidade brasileira.
No novo libreto, Celso Branco deu voz à linguagem coloquial, de fácil entendimento, incluindo gírias e até palavras chulas. No conjunto, o elenco se revelou extremamente bem ensaiado, afinado, com um fôlego invejável e boa performance. O problema da primeira apresentação no Ouro Verde foi que, em alguns momentos, o time de músicos competia com os atores-cantores ficando inaudível a parte lírica.
Ana Borges (Carmen), imprimiu em sua atuação uma sensualidade impressionante, à altura da exigência da personagem dissimulada e, por isso, terrivelmente invejada. ‘‘Se eu te quero, o risco é teu meu bem’’, cantava a cigana. A atriz foi bastante prejudicada em função dos problemas técnicos com o microfone especial. Sua voz soou metálica, abafada. Por muito menos, João Gilberto já interrompeu uma apresentação e deu uma banana. Mesmo assim, Ana Borges conseguiu atingir as notas que a música exigia. Mesmo com essas pequenas dissonâncias, ‘‘Carmen - Sambópera’’ é um espetáculo envolvente. ‘‘Carmen’’ une personagens arquetípicos (uma mulher fatal e um homem com sentimentos desgovernados) melodias que habitam em nosso inconsciente e ritmos que nos embalam no dia-a-dia.
A proposta de cenário minimalista permitiu uma vivacidade e dinamismo no desenrolar do espetáculo. A importância do sambópera, gênero ainda no nascedouro, reside na promessa do público ganhar mais musicais. Pois não deixa de ser incoerência um povo com um ouvido musical que não é normal ter escassas montagens de musicais com nossa cor amorenada.

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