CARMEM TRADUZIDA EM SENTIMENTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de julho de 2001
Simone MattosDe Curitiba 
Muitos espetáculos sobre a vida de Carmem Miranda já foram encenados, mas talvez este seja o primeiro que enfoca basicamente os seus sentimentos e emoções. ...uma tal de Carmem, que fará a sua estréia nacional em Curitiba, nesta sexta, é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa realizado nos Estados Unidos pela atriz e dramaturga curitibana Silvia Chamecki, que interpretará o papel título.
Durante os 16 anos em que viveu e atuou no Canadá, embora tenha realizado importantes trabalhos, Silvia sentiu na pele a frieza e a distância cultural e emocional com as quais os estrangeiros são tratados. Mais que isso, percebeu o quanto os brasileiros são sempre estereotipados no exterior. Até hoje, eles têm a imagem da mulher brasileira como sendo uma Carmem Miranda, comenta ela.
A partir destas constatações, a atriz se interessou por estudar o fenômeno Carmem Miranda, cuja imagem se mantém forte até hoje em todo o mundo. Fui até Los Angeles, onde ela viveu 14 anos e levantei todos os dados e registros sobre sua vida, conta.
Mas o espetáculo que entra em cartaz nesta semana não é uma simples biografia. Procuro mostrar apenas as emoções desta mulher que, como eu, viveu tantos anos num auto-exílio, comenta. O resultado é uma peça que focaliza a mulher e não a estrela. O acento é dado às emoções contraditórias que se escondiam debaixo daquela aparência risonha e espontânea.
No palco, Silvia mostrará como a fama e a fortuna podem conduzir ao infortúnio, caso a liberdade do artista seja limitada. Imagine como Carmem Miranda se sentiu ao sair do Brasil cantando samba e acabar tendo que direcionar sua carreira para ritmos como a rumba e a salsa, indaga Silvia. Ela comenta ainda que a artista morreu aos 46 anos de idade, em 1955, vítima de forte depressão.
Embora a montagem não seja uma ficção e contenha dados biográficos reais, Silvia prioriza mesmo as emoções. Falo da esperança que a pessoa tem antes de partir e do momento em que ela chega no outro país e percebe que todos os seus valores culturais estão anulados.
Propositalmente, o figurino do espetáculo é simples. Nada de grandes saltos ou vaporosas saias. Uso uma roupa preta, para que se sobressaiam unicamente as emoções dela, explica. Apenas um turbante e uma sandália auxiliam na produção.
A direção do espetáculo é de Dnize Castro, a produção de Simone Doege, o cenário de Andressa Ferrari, a sonoplastia de Karina Pereira, a caracterização de Lilian Marchioro e a iluminação de Sandro Glodzinski. Estamos trabalhando com nossos próprios recursos, sem patrocínio ou apoio algum, ressalta.
A trajetória artística de Silvia teve início na Curitiba dos anos 60. Ela trabalhou com diretores como Oraci Gemba, José Maria Santos, Cláudio Correa e Castro e Paulo Goulart. Nos anos 70, foi contratada pela Rede Globo do Rio de Janeiro e atuou em novelas como Dancing Days, Sinhazinha Flô e O Pulo do Gato, além de séries como Ciranda Cirandinha, Sítio do Pica-pau Amarelo e Copo de Cristal.
Em 1982, a curitibana partiu para o Canadá, onde viveu nas cidades de Montreal e Toronto e foi sindicalizada como atriz profissional. Lá trabalhou em cinema, televisão, rádio e teatro.
No final de 98, de volta a Curitiba, resolvi escrever o texto sobre Carmem Miranda, baseado nos dados que pesquisei e nas emoções que vivi. A primeira versão do espetáculo ficou pronta em 99, foi chamada de A Traição de Carmem Miranda. Dirigida por Jorge Sada, foi apresentada no pequeno espaço Cena Hum, com ótima aceitação do público.
Uma segunda versão, com o mesmo título, teve direção de Eloá Teixeira e foi apresentada no Mini-Auditório do Teatro Guaíra. A terceira e definitiva montagem, ...uma tal de Carmem, com o aval da diretora Dnize Castro, tem 60 minutos de duração. Esta é uma visão amadurecida dos outros dois trabalhos, comenta. Finalmente viverei no palco as emoções sob o ponto de vista da Carmem Miranda, sem ser a estrela, sem cantar e sem dançar, afirma.
...uma tal de Carmem Dirigido por Dnize Castro e interpretado por Silvia Chamecki. Estréia nos dias 3 e 4, às 21 horas, e no domingo, às 19h30, no Teatro Paiol. A temporada no Teatro José Maria Santos ocorre de 9 a 26 de agosto, de quinta a sábado às 20h30, e aos domingos, às 19 horas. Os ingressos custam R$ 5,00. Informações pelo telefone (41) 322-7150.


