Carmela Gross expõe no Paço das Artes em março
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segunda-feira, 01 de fevereiro de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 01 (AE) - No início de março, Carmela Gross inaugura uma curiosa exposição no Paço das Artes. Com objetivos aparentemente opostos, a mostra é ao mesmo tempo uma retrospectiva conceitual de seus mais de 30 anos de carreira e vitrine para mostrar a primeira e promissora incursão de uma das mais renomadas artistas contemporâneas brasileiras no campo da videoarte.
O núcleo central da mostra é o enorme painel de desenhos que Carmela preparou para uma exposição na Universidade do Rio Grande do Sul e que a diretora do Paço, Daniela Bousso, quis trazer para o espaço que coordena. Ele é composto por 329 imagens desenhadas por Carmela para mais de 35 projetos diferentes. Lá está, numa espécie de storyboard, o trajeto da concepção de trabalhos importantes como "Buracos", instalação que a artista apresentou na primeira edição do Arte/Cidade.
Na ocasião, ela cavou dezenas de buracos numa sala do Matadouro Municipal (atualmente ocupado pela Cinemateca Brasileira) de forma absolutamente proporcional aos contornos que desenhou de forma impulsiva com caneta bic.
A primeira obra contemplada no mural de desenhos é "Carimbos", de 1978, apresentada em sua primeira exposição importante. A artista atribui sua meticulosa e surpreendente capacidade de organização à experiência na universidade. Os desenhos serão expostos de forma mais simples, sendo afixados na parede com push pins.
Uma das características da obra de Carmela é uma certa sisudez, um rigor pouco complacente com o mercado e com o público. No caso dos desenhos, a única concessão feita ao espectador, que dá um ligeiro caráter sedutor ao painel, é o fato de eles terem sido reproduzidos em pedaços de algodão, translúcido e aparentemente agradável ao toque.
A mesma densidade pode ser verificada no vídeo, que a artista terminou de montar recentemente, graças ao apoio do Itaú Cultural. Profundamente hipnótico, esse trabalho de pouco mais de quatro minutos de duração coloca o espectador diante de um jogo de movimento, ritmo e forma tão seco como o carvão que parece constituir o objeto que protagoniza o filme. Mas, na verdade, o que vemos movimentar-se no centro da tela são as "Hélices", trabalho que Carmela apresentou em 1993 no MAM-RJ. Pouco tempo depois, elas foram filmadas por Luiz Duva para servir de cenário à ópera "Espaços Habitados".
Desde então, Carmela sempre quis realizar um trabalho em cima do filme bruto, mas só agora conseguiu realizar seu sonho. Na filmagem de Duva, as hélices mantinham sua forte coloração de azul, que a artista eliminou completamente de seu vídeo-objeto. "Ela se torna matéria calcinada, parece vir direto na matéria cinzenta da gente mesmo", confessa. Sincronia - Uma coincidência que lhe agradou profundamente foi o casamento do filme com a música "PAN - A Desconstrução da Palavra", de Flô Menezes. Ela foi escolhida depois que o filme estava montado e encaixou-se no projeto com sincronia surpreendente e precisa. Carmela diz ter adorado trabalhar com a imagem em movimento, com a idéia de memória temporal. "Trabalhei com um pedaço da cabeça que eu não estou acostumada a usar", diz. "Na verdade, é uma conversa em voz alta com a minha produção", resume. A artista, que já tem outros dois projetos de vídeo, faz questão de ressaltar que sua ação não tem nenhuma relação com a noção de narrativa. Para ela, o filme cria um tipo de eco, que não tem nada a ver com nenhum tipo de concessão na forma ou cor.
Tendo como carro-chefe da exposição duas obras extremamente densas e bem pouco tangíveis, Carmela optou por também reconstruir no Paço uma obra que desse visualidade e corpo aos seus desenhos. Trata-se de uma nova versão da obra Ilhas, uma forma de elástico que se desenha no ar graças à tensão exercida por pinos de metal. Esse trabalho já foi reapresentado no fim do ano passado, na Faap.
Apesar dos diferentes suportes e técnicas, a exposição na Cidade Universitária vem confirmar mais uma vez que o que importa na produção de Carmela Gross não é o objeto e sim a idéia por trás dele. "Minha intenção é captar o intangível", explica ela.
"Estou gostando muito de pensar a exposição desse jeito, porque ela nasceu desses desenhos de documentação, mas foi adquirindo corpo", diz. E acrescenta: "Eu adoro essa história da formulação vir do próprio trabalho e não ao contrário, isso de ir reencontrando pedaços seus, não no que você está pensando, mas por meio do que o próprio trabalho o induz".


