ReproduçãoEm tudo havia sinais de prosperidade. Alavancada pelo café, a economia da região era exuberante, graças principalmente à ausência de geada naquele ano. Isso era motivo a mais para se comemorar. Lugares havia muitos. Ninguém ignorava que em Londrina o tour era sagrado. Podia-se escolher qualquer roteiro, desde que incluísse as casas de Selma e de Laura (que na década de 50 pontificavam dentre dezenas de lupanares), o restaurante do Toninho e a boate Refúgio no final da jornada.
Motivos profissionais puniram Alfredo, exigindo-lhe permanência de uma semana inteira em São Paulo. Quem não tivesse passagem na mão corria o risco de ficar no aeroporto de Congonhas. O sorriso de Alfredo denunciava sua felicidade de encontrar movimento incomum nas áreas de espera da estação aeroviária. Ele mesmo confirmou: ‘‘Está como o diabo gosta. Mulher bonita em profusão, a maioria com destino a Londrina’’. Concluiu a frase e se levantou para oferecer seu lugar a uma jovem igualmente sorridente. Era Jovita, que iria conhecer a fazenda que o pai comprara, na região de Rolândia, dois meses atrás. Viajava em companhia de uma colega de escola, Esmeralda. Ambas faziam o último ano do curso de Direito.
Solícito, Alfredo prontificou-se a discorrer acerca das peculiaridades econômicas e perspectivas do Norte do Paraná. Ambas as jovens consideraram bem-vinda a sugestão e confessaram desconhecimento total da matéria. Mais tarde marcariam local e hora do reencontro. Chegara a hora do embarque, num DC-3 que, como dezenas deles, ajudaram a desbravar inóspitos lugares do interior brasileiro. De sexta a segunda-feira dava só bimotores Douglas, que despejavam ou levavam daqui mulheres que deixaram saudade. Muitas voltavam nas semanas seguintes ou por aqui ficavam.
Para Alfredo, que nada tinha a perder, as peças não se encaixavam bem: Jovita viera, em companhia de Esmeralda, conhecer a fazenda do pai; evitava local e hora para o encontro seguinte. Jarbas entendeu a preocupação do amigo e trouxe um alento argumentando que as dúvidas se dissipariam proximamente. Não havia outro jeito se não aguardar. E o fizeram no restaurante do ponto mais alto do São Jorge Hotel. A ordem era não ingerir muita bebida alcoólica, pois o dia nem terminara e a noite poderia exigir desempenho mais significativo. Por isso o comedimento de ambos.
O contentamento de Jarbas era compreensível, pois o enorme salão do prostíbulo de Selma parecia ensaio geral da escola de samba Beija-Flor, de Joãosinho Trinta. Não se sabia de onde viera tanta mulher bonita. Alfredo explicou: ‘‘Ao menos parcialmente se sabe...’’ Na medida em que o conjunto musical deixava rolar o som, aquecendo metais e percussão, aumentava o contingente feminino no salão, na proporção de 5 por 1 homem. Mais tarde ficaria 1 por 1. E haja uísque sobre a mesa. De vez em quando Alfredo dava uma geral na luz alta, como se nada quisesse. De repente ele se levantou, abriu os braços e perguntou: ‘‘Você?’’ Era exatamente Jovita, com o mínimo de roupa, ostentando o que possuía de melhor. O corpo, muito parecido com o de Esmeralda, que seguia atrás.
Jovita, insinuou uma explicação, balbuciando qualquer coisa, mas diplomaticamente Alfredo reduziu a proporção do episódio: ‘‘Não é preciso explicar, pois nada nos devemos. Amanhã será outro dia’’. Começaram a dormir quando amanhecia. Não foi fácil se desvencilhar de Jovita e Esmeralda. Elas só abririam os olhos depois do meio-dia. Combinaram que Alfredo levaria Jovita à nova propriedade do pai..., se Esmeralda deixasse.

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