‘‘Se todo malandro soubesse como é bom ser honesto ele o seria somente por malandragem.’’ É a frase antológica sempre presente na boca de Jarbas, o trambiqueiro. Usando-a ele procura justificar as falcatruas que comete. Quando olha na direção do pipoqueiro já se pode temer pela sorte do vendedor de pipoca. Enrola o pobre homem com quem troca piruás por pipocas perfeitas. Chegou a prometer-lhe inscrição gratuita num curso sobre tratamento do milho antes que o piruá acabe com ele (o cereal). Enriquecer detalhes de produtos que pretendia comercializar era com ele mesmo. Transformou modesto tapete, adquirido na periferia de São Paulo, em tapeçaria de um dos aposentos de Cleópatra. A relíquia é guardada com orgulho pelo médico que o adquiriu e ostenta.
O fraco de Jarbas é vender ‘‘obras-primas’’ de pintores famosos. Tem clientela fixa e impinge seus produtos devidamente emoldurados. As molduras são fornecidas por um tal de Alfredo. Processado por fraude, Jarbas explicou ao delegado de polícia: ‘‘Jamais vendi ao cavalheiro um Modiglianni autêntico. Mesmo porque não o possuia. Comercializo apenas cópias. Se o cliente interpretou-a como original, paciência. Até o preço seria diferente.’’
A associação de Jarbas e Alfredo surgiu de uma
joint-venture em que ambos comercializariam diplomas atestando o bom desempenho em setores econômicos da comunidade. Os documentos seriam conferidos por uma instituição que atendia pelo pomposo nome da imaginária Brazilian International Research and Development Institute. O preço da honraria dependia da cara do freguês e da sua disponibilidade financeira. O êxito da iniciativa naufragou por causa de um jornalista abelhudo que quis saber o endereço e a constituição da diretoria.
A versátil dupla teve que rever a estratégia ou mudar o
modus operandi, como gostavam de dizer. Evitavam comentar o assunto e mantinham a expectativa dos amigos. Um dia não aguentou a pressão e explicou: ‘‘Isto é uma fábrica de dinheiro. Chama-se teodolito. Com ele a gente simula áreas demarcadas para a construção de barragem, rodovia, núcleos habitacionais etc. Só que é tudo de mentirinha. Sempre há alguém interessado em pagar generosamente pela modificação no curso de um rio ou estrada. E aí que entramos com o milagre do teodolito...’’ No segundo dia marcado para concluir o negócio de uma demarcação foram recebidos, na casa de um sitiante viável economicamente, por um grupo de policiais. Perderam o teodolito e a esperança de ganhar dinheiro...
Tarde de domingo numa ensolarada praça de cidade do interior. Um grupo de pessoas aguarda a apresentação do ‘‘cantor norte-americano’’ Rony Barlow e sua banda. Os presentes aplaudiam colocando algum dinheiro na sacolinha, que não parava de correr... Nem era preciso ser bom fisionomista para reconhecer Jarbas travestido de Rony Barlow. Mais tragicômico era o inglês que tentava falar. Não se faria entender em lugar algum. É notável o esforço do pilantra na luta desonesta pela vida. Brilhantismo e versatilidade ele tem. Falta-lhe a honestidade.

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