Durante toda a sua trajetória, o escritor mexicano Carlos Fuentes, 71, se notabilizou por imaginar o passado e recordar o futuro.
Em romances como ‘‘A Morte de Artêmio Cruz’’ (1962) e ‘‘Terra Nostra’’ (1975), escaneou a formação da identidade latino-americana para mostrar que é por meio da lembrança do que somos que podemos evitar a repetição de nossos erros.
No ano passado, o vencedor de todos os prêmios literários mais importantes da língua espanhola, como o Cervantes e o Astúrias, resolveu fazer o balanço de todos os equívocos do século 20. E não gostou nada do que encontrou. ‘‘Este século que passou não é dos melhores mundos possíveis’’, disse em entrevista.
O seu retrato da última centena de anos agora está chegando ao Brasil. É o romance ‘‘Os Anos com Laura Díaz’’, que a editora Rocco está lançando este mês.
Lá estão a Revolução Mexicana, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial. Todos lembrados por um fotógrafo (‘‘não sou o maravilhoso Sebastião Salgado’’) que recebe a missão de retratar, em 1999, um mural de Diego Rivera em Detroit, berço da indústria automobilística norte-americana.
De Londres, onde se refugia a cada seis meses para escrever (‘‘sou um escritor matutino, e os ingleses, tal como as galinhas, acordam às 6 horas’’), o escritor falou sobre as mazelas do século, os 500 anos de Brasil e o fim da hegemonia no México do Partido Revolucionário Institucional, que durava desde o ano em que ele nasceu. Leia trechos a seguir.
O senhor já contou a história do país por meio do ‘‘macho’’ Artêmio Cruz. Até que ponto Laura Díaz é uma reação às críticas que o senhor recebeu de ser um escritor machista?
Não sou machista. O México é que é um país machista. Mas é certo também que eu queria descrever um período histórico como faço em ‘‘Artêmio Cruz’’ do ponto de vista de uma mulher. A perspectiva muda completamente. Eu convivi muito proximamente com minhas avós, que eram mulheres viúvas e independentes. Tive um exemplo em casa, desde cedo, do que é uma mulher íntegra e com personalidade. É algo que surge no romance e é muito distante de ‘‘Artêmio Cruz’’.
Por que em ‘‘Laura Díaz’’ o senhor dá tanto espaço à Guerra Civil Espanhola e tão pouco à Segunda Guerra Mundial? Quanto há de autobiográfico nisso?
O livro é basicamente uma história romanceada de minhas origens familiares. Lá estão os imigrantes que chegaram da Alemanha, como os meus. Lá estão descritas as casas de meus avós, de meus bisavós. O peso dado aos eventos históricos também é meu. Senti muito os efeitos da Guerra Civil Espanhola (1936-39). Primeiro como criança e depois como estudante, no México. Todos os melhores professores que tive eram exilados da Espanha. A luta contra Franco foi maior para mim do que a Segunda Guerra, que assisti de longe, como todos os latino-americanos.
Por fim, cresci nos Estados Unidos na época de Roosevelt e vivi a ferida que foi aberta na democracia americana com a ascenção do senador McCarthy nos anos 50. Muitas dessas experiências estão transpostas ao livro.
O senhor já disse, citando Pablo Neruda, que todo escritor latino-americano leva seu povo nas costas. Até quando o senhor pretende levar os mexicanos nos ombros?
Creio que essa obrigação é, cada vez mais, dos cidadãos. Dentro de todas as visões pessimistas sobre as quais eu falo existe um feito sobre o qual temos de fazer alarde. A América Latina soubre criar instituições democráticas nos últimos 20 anos. Emergiram de ditaduras muito obscuras como as do Brasil, da Argentina e do Paraguai. Parece que temos a possibilidade de entrar no século 21 com sistemas democráticos confiáveis e com uma sociedade civil cada vez mais preparada para prestar atenção para problemas que antes os escritores tinham de anunciar, senão ninguém os anunciava.
Hoje o escritor tem uma função social e política muito importante, que não tem nada a ver com a filiação partidária. É a de manter viva a palavra e a imaginação. Vimos durante o século 20 que esses são os primeiros alvos dos regimes ditatoriais, que os colocam nos campos de concentração, os matam, os exilam. Em 12 anos, Hitler conseguiu impor sua linguagem ao povo de Goehte.
Como o senhor recebeu a eleição do conservador Vicente Fox para presidente do México?
Estou celebrando o fim de 71 anos de um governo de um só partido, que atrasou terrivelmente a vida política e social do México. O simples feito de haver alternância já é uma vitória extraordinária para os mexicanos.
Não temos mais uma ‘‘democracia perfeita’’, como dizia ironicamente Vargas Llosa sobre o domínio do Partido Revolucionário Institucional (PRI), mas uma democracia imperfeita, como todas as verdadeiras democracias. A partir de agora, espero que não tenhamos um partido único, mas vários partidos, que como indica o nome são partes, não o todo.
Os mexicanos comemoram o fim do PRI. O Brasil comemora seus 500 anos. No discurso que o senhor fez quando ganhou o Prêmio da Latinidade, em 1999, no Rio de Janeiro, o senhor disse que a conquista da América pela Europa foi uma catástrofe que destruiu as grandes civilizações indígenas, mas que ‘‘uma catástrofe somente é catastrófica se dela não nasce nada que a redima’’. O senhor acredita que o Brasil se redimiu de sua catástrofe?
Da catástrofe da conquista nasceram as línguas castelhana e portuguesa, a mestiçagem, a criação de grandes cidades, de vida urbana, a defesa de direitos humanos. Não podemos negar o que somos. Uma vez, em 1992, passei em frente ao monumento de Cristóvão Colombo na Cidade do México e havia um grupo de indígenas, vestidos com plumas, dançando e gritando: ‘‘Colón al paredón’’. Pediam que Colombo fosse ao paredão. Pensei: OK, mas como diriam isso se não fosse em espanhol? Os brasileiros podem comemorar que formam uma grande nação latina, mestiça.
Por que o senhor escreve que o século 20 é o da identidade mexicana?
Creio que a partir das guerras da independência de toda a América Latina decidimos renegar o passado espanhol porque era opressivo e os passados negro e indígena porque eram bárbaros. Criamos então identidades falsas, o que chamo de repúblicas Nescafé, que acreditavam que teríamos imediatamente progresso, bem-estar, felicidade. Não foi bem assim. Ocultamos o passado e pagamos muito caro. A Revolução Mexicana foi um estouro da autenticidade do México. O país conheceu a si mesmo e rompeu as barreiras do isolamento a partir das grandes cavalgadas de Pancho Villa e de Emiliano Zapata. Se você pensa em (José Clemente) Orozco, em (Diego) Rivera, em (David) Siqueiros, em Frida Kahlo (todos artistas plásticos), em Alfonso Reyes, Juan Rulfo e Octavio Paz (escritores) verá que todos os grandes criadores mexicanos construíram suas grandezas em cima da identidade nacional.
Por que o senhor diz que a grande lição do século 20 é que o progresso da felicidade morreu?
Desde o Iluminismo, no século 18, havia uma concepção do progresso associado à felicidade. Teóricos como o positivista francês Augusto Comte consideravam que à medida que progredimos ficaríamos mais felizes. Podemos dizer isso depois de Auschwitz, depois dos gulags, depois de Hiroshima? Acho difícil. Agora temos a noção de que junto com o mais assombroso progresso tecnológico pode estar o mais pavoroso atraso político e moral, ambos filhos do século 20.
O senhor já viveu em Buenos Aires, em Santiago, Quito, Montevidéu, Genebra, Cidade do México, Londres. O senhor não tem vontade de vir morar no Brasil?
Não me tente. Isso é uma tentação. É como se me perguntasse: ‘‘O senhor quer ir para a cama com a Kim Basinger (risos)?’’.

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