Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
A questão proposta, nada angustiante mas tampouco desprezível: conseguirá o desenho animado que está nas telas de todo o País despertar nas gerações mais recentes - e quem sabe também nas intermediárias - algum tipo de interesse literário em torno de um dos mais fascinantes personagens da ficção de aventuras neste século? Não se cogita, obviamente, de paixão arrebatadora, dado que este é um privilégio de quem descobre maravilhas do imaginário alheio em simbiose de leitura com o próprio imaginário - a propósito, alguém por aí, travestido de internauta e testemunhando de camarote interativo a agonia do milênio, ainda se renderia ao exaustivo alongamento de folhear velhas páginas de Tarzan às voltas com seus gorilas?
Antes de virar desenho animado, o popular herói idílico representou sempre o ideal da inocência perdida, em livros, nos quadrinhos e no cinema, formando legiões de admiradores. Chegou a hora de encontrar um novo público
É provável que não, como resposta a esta última indagação. Quanto ao poder de fogo motivador do desenho animado, a resposta parece ser um prudente mas estimulante sim. Leve, ligeiro, objetivo, fiel às origens até os limites Disney, o filme pode muito bem determinar o encontro com um tipo de herói incomum na galeria de mitos que povoam o dia-a-dia da garotada. Um herói que encontrou sua melhor fabulação e formatação na literatura folhetinesca e nos quadrinhos.
Quando criança e adolescente, um estudante burocrata e sempre às voltas com doenças. Caixeiro-viajante, estenógrafo, ferroviário, publicitário. Ex-tudo. Um fracasso por onde passou. Assim transcorreu a opaca existência profissional do americano Edgar Rice Burroughs, na primeira década do século. De repente a decisão: ser escritor. Aos 36 anos, recém-casado, sem absolutamente nada até então que fosse pelo menos banal em sua vida.
De início enveredou-se pela ficção científica. O relativo sucesso de uma série sobre um tal John Carter no planeta Marte o animou a criar, entre dezembro de 1911 e maio de 1912, uma aventura que apresentava o futuro mito: Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes). O triunfo arrasador do novo personagem deu origem a milhares de cartas dos leitores, que exigiam não apenas uma continuação da história como também uma mudança no final da primeira novela, na qual o herói renunciava a seus direitos de lorde e ao amor de Miss Jane Parker.
A partir daí, Burroughs renunciou aos demais projetos que tomavam tempo precioso e concentrou seus esforços na triunfante criatura que público e editores reclamavam. Aceitando as diretrizes impostas pelo novo editor e adulando sempre as necessidades de consumo, Edgar Rice Burroughs converteu-se em fabricante exclusivo de aventuras de Tarzan, das quais publicou mais de quarenta títulos, e passou a ser o novelista mais bem remunerado do seu tempo.
Este sacrifício do talento literário no altar do dinheiro não impede que, no gênero que escolheu - a aventura folhetinesca -, Burroughs deva ser considerado um mestre, na justa medida de suas ambições. E dono de imaginação ilimitada e exemplar, já que criou tudo a partir do nada, isto é, sabe-se que ele jamais arredou pé do quintal de sua casa para criar os luxuriantes cenários das andanças africanas de Tarzan.
Comodista e preguiçoso sim, mas talentoso também. Na ótica do escritor, Tarzan não é meramente um aventureiro a bater no peito e a pular de galho em galho. Burroughs o criou à imagem e semelhança do justo, bravo e belo bom selvagem meditado politicamente por Jean-Jacques Rousseau há mais de duzentos anos. Tarzan é o homem de volta ao estado primitivo e exótico da natureza, corrompido pelo pacto do contrato social e pela instituição da propriedade privada.
Ele é o apelo perfeito das origens, é a procura de uma inocência perdida, de uma ideal e romântica idade de ouro - não foi por acaso o sucesso em plena Depressão, quando a sociedade americana mais precisava de heróis. E como fecunda utopia, o personagem era grande demais para permanecer somente no papel. O público fiel, além do herói criado pela rédea solta da própria imaginação, logo veria outros traços em outras manifestações artísticas.
A prosperidade de Tarzan e de suas derivações mitológicas foi assegurada principalmente graças a dois outros meios de expressão e comunicação: o cinema e as histórias em quadrinhos. Nas duas manifestações - com notáveis variantes de rosto, corpo e até tangas - Tarzan foi um dos personagens da mitologia do século XX que exerceram maior repercussão no espírito popular.
Como no caso de arquétipos famosos, cinema e quadrinhos codificaram o personagem, assimilaram características físicas, identificaram concretamente e converteram Tarzan num símbolo universal que é impossível não reconhecer. Johnny Weissmuller, o nadador campeão olímpico que interpretou Tarzan em 12 filmes a partir de 1932, ainda hoje é o nome, o rosto e o grito - ainda que não fosse dele - mais lembrado por diversas gerações.
É evidente que o cinema sempre teve Tarzans melhores que outros. Mais importante notar, porém, é que as derivações cinematográficas do mito tenderam sempre a civilizar o personagem e, paradoxalmente, a desmitificar a inteligência natural, fato racial que Burroughs propunha. Por um lado, a inclinação selvagem e de retorno ao primitivo chegou à tela aburguesada; por outro, sendo geralmente interpretado por atletas incapazes de expressar uma única expressão dramática (e, no caso de Weissmuller, até de decorar os diálogos), o personagem foi transformado em algo simples, cuja força dramática depende apenas de seus atributos simbólicos, alguém sempre distante da complexidade e das contradições daquele que está nas páginas de Burroughs.
A primeira incursão de Tarzan fora de seu meio da expressão habitual foi para entrar no cinema: 1918, com Elmo Lincoln no papel. Somente onze anos depois o desenhista Harold Foster faria a primeira história em quadrinhos com o personagem. Mas Foster, que a partir de 1937 passaria a se dedicar a uma das obras-primas do gênero, O Príncipe Valente, não chegaria a dar a Tarzan a grandeza obtida por seu sucessor, Burne Hogarth. Gênio indiscutível, artista plástico completo, profundo conhecedor de anatomia, é graças a Hogarth que Tarzan começa a definir-se como um novo ser, quase independente de sua origem literária. Força, inteligência, beleza física em perfeita harmonia.
Barroco no traço, mestre da mobilidade e do dinamismo, Hogarth cria um Tarzan soberano e elegante, sempre retratado em posições e movimentos de extrema tensão.
Evidentemente, nenhum ator podia dar vida a um ser que nada tem a ver com os humanos mas sim com a mitologia clássica. Não foi sem motivo que especialistas europeus o batizaram de o Michelangelo dos quadrinhos.
Galeria do filho da Selva
Johnny Weissmuller, que interpretou Tarzan em 12 filmes, é ainda o nome, o rosto e o grito mais lembrados por diversas gerações; e o herói, agora transformado em desenho animado pela Disney. Já o artista plástico Burne Hogarth foi quem melhor soube dar forma ao personagem saído da imaginação de Edgar Rice Burroughs nas histórias em quadrinhos





