Devemos redobrar o cuidado ao comemorar o dia do amante. Principalmente na semana que o precede. Ele foi concebido como forma de incrementar as vendas, mas pode acarretar transtorno. Alfredo tem vivido situações constrangedoras.
Geralda, sua mulher, fica de marcação cerrada e silencia e franze o cenho até quando ele atende a um telefonema. E tropeça ao dar a impressão de naturalidade, mas a companheira crê que ele mantém diálogo em código. E dispara perguntas perturbadoras depois que ele utiliza frases como ‘‘Não vai dar’’, ‘‘Pega no p钒, ‘‘Aguenta a mão’’, ‘‘Confia na mandioca’’ etc. Ela invariavelmente pergunta o que não vai dar, pega no pé de quem, etc.
Dias antes da data comemorativa ele telefonou informando que não iria jantar em casa porque teria de recepcionar o Jurubeba, que chegara de São Paulo para uma blitz incerta no escritório. ‘‘Você sabe como isso me chateia, meu bem, mas não há outro jeito. Jante sozinha que depois a gente compensa...tá?’’
Coitado de Jurubeba. Jamais pensaria num flagrante, pois confiava demais na honestidade do pessoal da filial.
Por que não uma visita inesperada de Geralda ao namorado Hilário? Só o marido dela não sabia. Funcionário de banco recém-transferido, já confessara a ela ter pavor de solidão. Por isso ele apreciava a presença dela e sorriu como bebê quando a viu entrar. Ela o abraçou e beijou com sofreguidão de quem esperava meses por isso. Explicou-lhe que realmente a visita seria rápida. E foi, suficiente para concretizar os sonhos acalentados numa semana.
Alfredo chegou quase meia-noite. Geralda já estava deitada, cansada e ‘‘com dor de cabeça.’’ Dia seguinte, ela informou a Alfredo que iria sair para ajudar uma amiga numas comprinhas. Era verdade, pois ela teria de escolher um presente para Hilário, tipo do sujeito que tem tudo. Optou por suspensórios e um pijama de bolinhas. Certa vez ele lhe dissera gostar e precisar desses dois itens. Escondeu as sacolinhas numa caixa de compensado na parte quase inacessível do guarda-roupa. Jamais Alfredo poderia descobrir. Seria desastroso se isso acontecesse.
Para Alfredo, o marido cornudo, ela comprou um cachimbo inglês produzido com tronco de roseira. Ninguém sabe por que esse detalhe é importante. Alguém, um dia, utilizou esse argumento de venda, que permaneceu até hoje. Para Geralda isso não tinha a menor importância. Mas funcionou. Para ela Alfredo escolheu uma camisola e calcinha bege, que ficaram bem nela.
No dia da entrega, a preocupação de todos. Ela assegurou que somente no início da noite poderia conversar com Hilário, com quem trocou presentes. Ele deu um frasco de perfume que no início do romance ela dissera gostar. Outro tipo de retribuição só seria possível no dia seguinte, por causa de Alfredo, que deveria retornar ao lar por volta das 22 horas. Só que sua chegada ocorreu cerca da meia-noite. Ele jurou que teve furado um pneu do carro e ao trocá-lo constatou que o estepe também vazara.
Deu tudo certo. Isto é, tudo conforme planejaram. Dias após, Alfredo foi à agência bancária pagar seu IPTU e, que surpresa, o gerente de negócios, Hilário, ostentava um lindo suspensório. O mesmo que fora guardado no baú inacessível do guarda-roupa.

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