O que passou, passou. O que já foi, não será. É assim para a humanidade, menos para Alfredo. Ele voltava ao passado para rever velhos amores. Era portador de um mal que ao longo dos séculos tem atacado milhões de seres humanos: o sadomasoquismo, mais conhecido como sadismo. Sofria do insólito mal que só desaparecia definitivamente da cabeça após rever aquelas que, ao longo da sua vida, foram sua namorada. Nem ele sabia por que ou como se desenvolvia a anomalia. Se congênita ou conseguida nas infindáveis madrugadas no sereno. Ele só encontrava a tranquilidade depois de constatar como ficara, cinco, dez ou vinte anos depois, aquela a quem desejara ardentemente.
Ele não só as desejou como um romântico volúvel, mas com elas, salvo honrosa exceção, desfrutou de momentos apaixonados. Trocavam juras de amor emocionantes. Quem os ouvisse não acreditaria que, um dia, cada qual tomaria caminhos diferentes.
Assim foi também com Maria Luiza, que tivera a iniciativa de arrebatá-lo dos braços envolventes de Laura. Esta, que sempre se cuidou para não engordar, morreu magérrima, vítima da tuberculose. Aquela permaneceu escultural longo tempo, mas os impiedosos anos trouxeram-lhe dezenas de quilos adicionais, excessiva e desconfortante barriga e um traseiro abundante.
O amor por Eloá parece ter sido o mais significativo em toda a existência de Alfredo. Ele simplesmente não podia viver sem ela. No princípio ela dava de ombros, insinuando que isso não fazia diferença. Mas fora iniciativa dela a incursão do casal numa confortável, perfumada e espaçosa cama. Viveram juntos durante sete anos. Um belo dia ele arrumou as malas, deixou dinheiro para o aluguel e o suficiente para seis meses de supermercado e desapareceu do mapa. A última vez em que se viram ela era auxiliar de domadora de circo.
Alfredo dedicava especial carinho a Zuleica. Dizia que procurava compensar os momentos de satisfação que ela lhe concedia graças a um detalhe: ela nunca descobrira que era portadora de hímen elástico, que jamais se rompera. Era detalhe adicional que só satisfação proporcionava a ambos, além de uma dor aceitável. Um médico recomendara simples e rápida incisão ou lento e progressivo rompimento da membrana, mas ele deveria contribuir com empenho mais efetivo. Ambos elegeram a segunda e eficaz alternativa. Mas sobreveio a separação, movida pelo ciúme. Ele não aguentava mais ter de cumprimentar novos amigos e parentes encontrados em casa visitando Zuleica. Antes da descoberta do hímen quase ninguém a visitava. Pelo sim, pelo não, decidiu ficar sozinho.
Foi quando surgiu a exuberante Anita. Ele considerou que, como se não bastassem os atributos, até o nome dela era eufônico. Não tinha ‘‘esse’’ ou ‘‘erre’’. Aliás, no caso o que menos importava para Alfredo era o nome da vítima seguinte. Nela um orifício podia ser chamado de túnel. Era empertigada, otimista e elegante. Mas constituía um desastre toda vez que abria a boca. O destino e uma morena de olhos verdes os separaram. Ele não quis ouvir. Ela se preparava para contar que engravidara. O filho ele só ficou conhecendo na última vez em que se viram, pouco antes da morte dela.

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