Se um dia for possível conquistar a felicidade, o responsável pelo evento vai se postar na entrada do Paraíso e, exatamente quando chegar a vez de Alfredo, o usará como ponto de referência: ‘‘Até o cavalheiro aqui, tudo bem. Ele e os que o seguem ficam para a próxima oportunidade.’’ Uma oportunidade que poderá nunca existir. Quem não conhece os meandros do mundo de Alfredo poderá jurar que existe uma conspiração contra ele. Se ele estiver numa fila para receber laranja a dele estará podre ou a quantidade no saco será insuficiente. Se ele estiver na expectativa de receber, digamos, passagem de avião, a dele não estará disponível. Ao esperar num consultório médico, será o primeiro. O primeiro a receber o aviso de adiamento da recepcionista: ‘‘O doutor tem compromisso no hospital...’’
Dia destes ele se programou para ir a Porto Alegre. Só que teria que apanhar a passagem no balcão da companhia aérea em Curitiba. A atendente, solícita e simpática, checou relações, revirou montinhos de papel, falou com alguém ao telefone e de vez em quando olhava discretamente para o passageiro em potencial. E perguntou: ‘‘O senhor tem certeza que a viagem será por esta companhia?’’ Os dissabores do dia-a-dia prejudicam diretamente o estômago de Alfredo. Ele precisa de sorte para adquirir medicamento natural. Andou a cidade inteira na compra de Espinheira Santa. Ao mostrar as folhas à sua mulher, ela perguntou: ‘‘O que pretende fazer com esse capim- gordura?’’
Em recente viagem ao exterior ele recapitulou frases que se utilizam em qualquer circunstância. Estudou-as em todos os momentos possíveis. Ao chegar entrou na fila e juntou-se aos mais ou menos 900 passageiros de cinco outros aviões que pareciam ter chegado juntos. Na frente dele, umas 20 pessoas se preparavam para passar pela Alfândega. Foi quando uma funcionária esticou o braço sobre seu peito e pediu que ele saísse da fila e passasse em outro portão ao lado, onde havia a inscrição ‘‘Somente tripulantes’’. Disse que ele não integrava a categoria daqueles privilegiados profissionais. Ela explicou que era apenas para distribuir mais racionalmente os passageiros. E lá foi ele encabeçando enorme fila de sorridentes visitantes. Quando o homem da Alfândega fixou-lhe o olhar ele sentiu que alguma coisa parecia errada. E lamentou que nem mesmo o português falasse bem. Imagine que dificuldade enfrentou para explicar ao cavalheiro que, absolutamente, não conduzia linguiça, presunto, pernil, mortadela ou outros produtos enquadrados na família dos embutidos.
Problema mais constrangedor viveu Alfredo quando precisou esvaziar a bexiga.
Perguntou a umas seis pessoas onde encontrar instalações do gênero, mas utilizou as expressões WC, sanitary, water-closet e outras. Ninguém sabia do que se tratava, pois o correto seria perguntar Rest-Room. Parecia que ele enfrentava uma conspiração internacional.

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