Meia-noite. Reginaldo e Marina caminham no interior da mata fechada, local ermo e de muitas árvores que uns chamavam de bosque e outros apelidaram de parque. Pertencia ao Estado, mas parecia abandonado. Foram preservados todos os dez alqueires, parte de vegetação baixa, tipo cerrado, mas não faltavam árvores frondosas. Eram poucas as trilhas e não havia muitas alternativas para escolha. Dependia dos objetivos de cada um. Homossexuais, travestis, assaltantes, policiais à procura de marginais e mocinhas ingênuas que buscavam - acreditavam - degrau mais alto na escala social.
Parecia que os caminhos improvisados eram iguais e levariam a um descampado, na verdade ponto onde se concentravam papéis usados, folhas rasgadas de jornais, resíduos de comida e pertences utilizados em manifestações de macumba. De vez em quando algumas vestes sujas de sangue. Seu maior movimento era sempre à noite. Quem se desse ao trabalho de acampanar poderia comprovar que eram casais a maioria dos que frequentavam o lugar. O movimento começava por volta das 20 horas e diminuía pelas três da manhã. Os frequentadores ingressavam no mato a pé e muitos possuíam carro e o deixavam onde fora uma cerca de arame farpado.
Reginaldo prometera a Marina que iria tirar dela algumas fotos encomendadas por uma indústria de cosméticos. Era meio caminho andado na contratação das jovens que ele escolheria. No começo de nada Marina desconfiara, nem do fato de que ele não portava equipamento fotográfico. Nem precisava porque ele era, na verdade, um estuprador que a Polícia procurava sob acusação de ter assassinado uma dezena de mulheres. Os dois davam sinal de cansaço e ela manifestou o desejo de voltar, de sair da floresta. Isso contrariava Reginaldo, que mesmo assim concordou com uma parada para descanso. E fez Marina prometer que continuariam a caminhada. Ela afirmou que ficara com muito medo quando viu um esqueleto do que fora uma mulher. Próximo dali um corpo, também de mulher. Marina insistia em que voltassem e tirassem as fotos em outro lugar, mas Reginaldo queria que ela tirasse toda a roupa.
Ela procurava ganhar tempo a fim de aproveitar um ‘‘cochilo’’ dele. Enfim, esperava que algo acontecesse para que ela se desvencilhasse do seu algoz. E aconteceu. O revólver do marginal caiu-lhe das mãos quando ele pretendia colocar a arma no coldre para usar as mãos ao desatar nós numa corda de diâmetro da utilizada em cortina. Com ela estrangulava suas vítimas antes ou depois de estuprá-las. Em todo o comportamento de Reginaldo houve dezenas de indícios do que ele pretendia fazer com Marina. Mas uma frase apenas a convenceu: quando ela reclamava das circunstâncias (escuridão, buracos, árvores, ausência de onde caminhar e corpos espalhados na área) ele lamentou: ‘‘E eu que terei de voltar sozinho...’’

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