Carlos da Silva
A última vez em que falou sobre trabalho foi há cinco anos. Ela acabara de ser demitido de um estabelecimento bancário. Não levava jeito. Aliás, não levava jeito para coisa alguma. Por isso botou na cabeça que, se eleito deputado, poderia servir melhor à pátria. Consultou amigos íntimos e eles foram unânimes: Se você não se eleger, quem o fará? Houve até quem se dispusesse a entrar com algum para o livro de ouro, desses de que muitos falam e ninguém vê. Trata-se de um livro mesmo, de páginas numeradas, onde as vítimas colocam o nome, assinatura, data, número e valor da contribuição. Na capa desenhou discretamente: Livro de ouro para eleição do deputado Jarbas Asdrubal Lampeiro. Ele se emocionou com a delicadeza de um amigo que, ao revê-lo, não teve dúvida. Tirou do bolso uma cédula amassada de cinco reais e fez o lançamento no livro. Foi pouco o numerário mas serviu de estímulo. Em outro livro Jarbas estabelecia a estratégia a ser desenvolvida na campanha. Tinha que ser realista porque todo dinheiro que entrasse dependia da generosidade e compreensão dos amigos. E a maior parte deles pulou fora. Claro que inventavam as mais surpreendentes desculpas. Foram poucos os que entenderam a mensagem patriótica de Jarbas. Ele comentava com amigos que, se tivesse padrinhos cumprindo mandato, poderia obter alguma ajuda. Mas não tinha. Alguém sugeriu que ele adotasse postura de oposição, já que não tinha amigos na situação. Ele concordou: Vou cair de pau em toda maracutaia. Meu honrado povo precisa saber da verdade. Todo pronunciamento ele encerrava assim: Claro que sempre fui afeito ao diálogo. Percebeu que o terreno ia diminuindo e o espaço no palanque rareando. Então passou a utilizar o rolo compressor, uma dúzia de adolescentes que o dia inteiro distribuía panfletos e santinhos.
Jarbas sentia que a propaganda não evoluía. Reuniu os assessores para uma avaliação dos resultados e análise da última pesquisa. Um desastre. Seu nome figurava em último lugar. Os analistas concluíram que algo surpreendente teria que ser bolado. Aquele político não apresentou, na Assembléia Legislativa, projeto de lei propondo anistia aos motoristas que transgrediram o novo Código de Trânsito? Mas o problema era exatamente esse: uma coisa surpreendente que chamasse a atenção do eleitorado. Eureka! Alguém berrou: Vamos distribuir todo o salário dos deputados entre entidades beneficentes! Consideraram viável na prática. Podemos prometer à vontade. Ninguém vai conferir. E brasileiro é ingênuo. No final do encontro passaram a limpo várias propostas que seriam utilizadas, além da doação salarial: distribuição de Viagra e de camisinha (carimbada com o nome do candidato), construção de um supermotel em áreas centrais das principais localidades do Estado; e doação de terreno e isenção de impostos a um cidadão que pretendia construir uma pastelaria na região dos Cinco Conjuntos.
Mas o staff do futuro salvador da pátria preferiu um corpo a corpo nas sedes de sindicatos, portaria de indústrias, templos, estádios, pontos de ônibus, atos religiosos etc. As últimas estimativas indicaram que Jarbas conquistaria, tranquilo, os 40 mil votos necessários para a eleição de sua excelência. Era bom os amigos irem aprendendo o tratamento que se dispensa aos eleitos. Eles apreciam essas coisas...
Finalmente, o dia tão esperado das eleições. Esforço concentrado da equipe de Jarbas. A ordem dele era ficar em cima das possibilidades de fraude. Nas bocas-de-urna ele computou a possibilidade de conseguir 80 mil votos. Mas, que decepção! Com muito esforço ele obteve 40 votos explicáveis: O eleitorado não entendeu a nossa mensagem de desenvolvimento social e econômico. Aliás, já se disse que brasileiro não sabe votar...





