Carlos da Silva
Alfredo fora levar familiares ao interior para aproveitar o prolongado fim de semana. Estava retornando para casa a fim de retomar o trabalho na manhã seguinte. Os últimos raios solares desapareciam no horizonte, facilitando o dirigir. Era bom sentir apenas saudade do sol batendo no rosto e penetrando nos olhos, como acontecia horas antes. Um ventinho frio começava a incomodar, determinando que as janelas principais do carro fossem fechadas ao menos pela metade. De barulho só se ouvia o ronco contínuo do motor e, ocasionalmente, o deslizar dos pneus no asfalto.
Era hora de esticar as pernas e de completar o tanque. Pouco mais adiante havia um posto de serviço. Na calçada da frente um aconchegante ponto de ônibus coberto. Sempre havia gente esperando. E que gente. Desta vez também uma jovem vestida de negro. Ela olhou insinuante e discretamente. Como um cavalheiro, deixou o carro abastecendo e foi convidar a moça para aproveitar a carona. Ela quis complicar mas rendeu-se aos argumentos de Alfredo, que por sua vez começou a sentir remorso. Ele curtia os momentos pós conquista e os que antecediam suas relações impróprias, como diria Clinton. Mas não esquecia da esposa, Cíntia, que se sacrificava para satisfazer os três filhos. Agora mesmo - pensou - ela deve estar passando roupa...
Alguma coisa estava errada. A jovem não portava muita roupa, mas disse que passara 15 dias no sítio de um tio. E mais: no princípio ela mantinha excelente postura mas se manifestou hostil no detalhe da escolha do motel. Tinha que ser o indicado por ela. Ou um gramado sob árvores frondosas.
Isso significava que ela conhecia - e bem - aquelas quebradas. Alfredo redobrou a atenção, pois havia algo que não se encaixava no mosaico. Gramado é convite a assalto. Ele ficou com a impressão de ter visto pelo retrovisor dois homens escondidos atrás de uma árvore. Optaram pelo motel seguinte. Ao passarem pela portaria, a jovem foi cumprimentada pela recepcionista, que lhe passou a chave do apartamento. Duas situações absurdas. Ele decidiu continuar.
Mas o clima se modificara. O encanto e elegância de Maria - era o nome dela - desapareceram quando o conquistador se preparava para os finalmentes. Ele simulou uma ação decisiva de popa e ela pôs-se a gritar. Nesse instante invadiram o apartamento três homens armados que anunciaram: É um golpe do suadouro. Vamos passando o dinheiro se não o sangue derrama, meu chapa. Alfredo procurava vestir-se e pedia calma.
Nesse momento ouviram-se dois tiros e no pequeno apartamento havia oito homens, que mais pareciam participar de movimentada comédia. Um era Alfredo, que começava a bocejar, três eram assaltantes e quatro policiais, que haviam estado de campana várias horas. O delegado de polícia da área recebera reclamações e decidira desenvolver uma incursão no setor de motéis. E considerava-se vitorioso, pois só faltavam aqueles três, que trabalhavam entre o gramadinho e o motel.
Maria procurava se envolver na ala que reunia a quase vítima, Alfredo, e os policiais, mas um agarrou-a pelo braço e berrou: Vai me dizer que há um terrível engano e que você é uma moça de bem? Vamos para o distrito, pois você tem muita coisa pra nos contar. A propósito, dos três meliantes, qual é o seu namorado?
No dia seguinte um dos jornais noticiava: Polícia prende quadrilha do golpe do suadouro. Morena envolvida de novo. Vítima principal desaparece sem prestar depoimento.





