Alfredo estava na iminência de explodir. Talvez fosse melhor para ele do que ficar todo tempo ouvindo Cremilda azucrinar-lhe ao ouvido. O assunto era sempre o mesmo: a esposa, Mariana. A posição dele não era confortadora. Morria de amor por ambas, mas Cremilda exigia exclusividade e que ela fosse a escolhida. Mariana, coitada, não sabia de nada e era esposa exemplar, em todos os sentidos. Há muito só saía de casa para a compra de gêneros de subsistência. Entretenimento, nem falar. O tempo, quase todo, ela dedicava ao George, recém-nascido do casal. Era este o calcanhar de Aquiles de Cremilda. Perto dela era proibido falar em bebê, criança, mamadeira ou outro termo que lembrasse a existência da criança. Em temporada de vacinação Alfredo se policiava para dar férias a qualquer vocábulo que tivesse conexão com essa medida preventiva da saúde pública.
O remorso entristecia Alfredo. Não sabia como livrar-se da amante, Cremilda, e tinha certeza de que jamais poderia viver sem Mariana, que o estimulava a passar o fim de semana na praia. Ela não podia acompanhá-lo por causa de anomalia no sistema respiratório de George. Combinaram que se houvesse agravamento na saúde ela comunicaria pelo telefone digital. Tudo transcorria normalmente. Valeram a pena as noites e dias na casa da praia. Até que, ao combinarem a volta, ela indagou asperamente: ‘‘Então, o que decidiu sobre aquela vagabunda?’’ Depois de duas horas de ofensas, enfatizou a amante: ‘‘Então, já sabe. Chegando em casa, vamos os dois acertar com ela. Agora vai ser do meu jeito. Com as duas você não fica...’’
Alfredo sugeriu que ficassem na praia também na segunda-feira. Ela concordou mas não conhecia a intenção de Alfredo. Ligou de novo para Mariana e ela recomendou como sempre: ‘‘Juízo, enh. Esperarei com um bolo. Divirta-se. Beijo...’’ Na mente de Alfredo desfilavam as duas: a esposa fiel e compreensiva e a outra, a amante, prepotente e vingativa que jurou que cumpriria a ameaça de enfrentar e contar tudo a Mariana.
Estava boa a praia na manhã de segunda-feira, frequentada geralmente só por crianças em férias e esposas ávidas de descanso, longe dos problemas da vida doméstica. Os maridos ficam trabalhando no planalto e voltam no outro sábado.
O sol apareceu tímido, por entre nuvens, e perto das 11 estava ótimo, prenunciando fortes raios solares. Os dois, que pareciam longe de encontrar solução de um caso passional, a exemplo de um grupinho de crianças, descobriram e utilizaram uma plataforma arenosa no mar, bem mais elevada e indicada para a permanência. Alfredo ficou esticado, só a cabeça fora da água.
Percebeu que Cremilda rolava em sua direção e a esperou com um abraço. Ela sorriu e prometeu: ‘‘Tudo vai ficar numa boa, vai ver. Depois, sozinhos, elegeremos este lugar como nosso ninho de amor’’. Além dos dois, estavam na plataforma apenas três crianças, que observavam outras brincando com bolas de plástico. Olhando tudo em volta, Alfredo considerou ideais o lugar e o momento. Abraçou fortemente a amante, beijou-a sofregamente e assim rolaram os dois corpos para fora do lugar mais alto e foram se aninhar no oceano, longe de qualquer socorro. Ela tentou nadar para escapulir dali, mas seu rosto foi contido. Ela não conseguia respirar e da sua boca saiam bolinhas de ar. Sem oxigênio e cansada de se debater, ela parecia deixar-se levar pelas ondas mais fortes. Se lhe fosse possível ouvir, perceberia o pedido de socorro que ele gritava: ‘‘Socorro, não deixem morrer minha mulher...’’

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