Carlos da Silva
Carlos da Silva
Romantismo
de antigamente
Para um velho jornalista é desoladora uma redação de jornal sem aquelas mesas antigas com gavetas cheias de papel inútil. O útil não fica na gaveta. Mas o tempo o ensina a se acostumar com o clec-clec do teclado, cordão umbilical entre ele e a máquina, a menos que a tecnologia traduza para o âmago do terminal o que acontece no cérebro humano. Então será dispensável a digitação e ao homem será de novo permitido pensar e sonhar com o romantismo de antigamente.
O medo é a sombra da ignorância também na informática. Tem medo quem nunca se imaginou dominando os comandos que determinam o que fazer. Chega o momento em que não dá mais para fugir. Bocejando, vai todo mundo para o curso. Ele estabelece a interação entre o homem e a máquina. Aos poucos se vai descobrindo que ela até favorece a inspiração. De repente, é todo mundo digitando num ambiente silencioso. Na verdade não é tão silencioso assim, mas não chega a prejudicar a produtividade. Uma das grandes vantagens é que a informática só funciona perfeitamente em temperatura que não prejudique seus chips. Não se sabe como os americanos se arranjaram na recente Guerra do Golfo, com 40 graus centígrados e computadores que exigem menos de 15 para mostrar até o caminho do paradisíaco acampamento de Ali Babá.
Nesse clima (de informática e não do deserto) que Alfredo entrou em cena. Ele preparou com denodo seu ingresso bombástico no jornalismo: entrevistar nada mais, nada menos, que Nelson Rockefeller, que vem ao Brasil (especificamente Jacarezinho) lançar as sementes de uma grande idéia: a constituição de cooperativas de agricultores para o uso racional e barato de máquinas para dinamizar a produção no campo. O primeiro problema: voltar a estudar a língua inglesa. Noites indormidas e esforço desnecessário. O empresário desceu do avião e fez saudação em caprichado portunhol. A frustração transformou o problema em solução. Menos mal.
Alfredo parece ter o dom de atrair problemas, comuns em repórteres afoitos. Fora designado a entrevistar as primeiras damas do Estado e de Londrina. Elas estavam aderindo a uma campanha filantrópica e esperavam o apoio popular. Mas Alfredo decidira fazer rápida entrevista para poder continuar outro trabalho que deixara na metade. Aproximou-se das senhoras perguntou: Como se chamam? Em outra oportunidade ele foi a Cambé assistir a uma conferência proferida por famoso e notável orador espírita. Após a prédica deixou o palco e juntou-se ao público para cumprimentar espectadores. Ao se aproximar do grupinho de Alfredo, disse-lhe: Tenho impressão de que nos conhecemos de algum lugar... Pilheriando, o desaforado respondeu: É possível. Fui diretor da Penitenciária... O ar ficou irrespirável diante de tamanha deselegância. Alfredo quis emendar e desculpou-se. O orador ajudou e explicou que em qualquer situação sempre cabe o bom humor. E Deus nos quer felizes e sorridentes, como estamos agora.
No dia seguinte Alfredo foi a um salão de barbeiro e, enquanto aguardava a vez para cortar o cabelo, contou três ou quatro anedotas fortíssimas, daquelas especiais para o lugar. Numa das cadeiras um senhor ria a mais não poder. Ao despedir-se do dono do salão, Alfredo, em outra situação desagradável, pediu desculpas por não tê-lo identificado, mas o arcebispo dom Geraldo Majella Agnelo, hoje no Vaticano, continuou rindo e pediu: Conte sempre suas piadas, claro que em ambientes adequados... como este.





