Jarbas comprara uma kombi para tentar um reforço do parco orçamento. Pretendia se dedicar ao frete de mercadoria. A pintura deixara o veículo na cor que se convencionou chamar de ‘‘branco gelo’’. Era o que constava no documento emitido pela autoridade do trânsito. Mas, na verdade, não era nem branco e nem gelo. O pintor argumentava que toda cor básica é assim mesmo. Fica indefinida. Mas isso é outra história. Ele estava passeando, para pegar o jeito do carro. Acabou estacionando numa área aberta, próxima da sede central de uma agência de guarda e transporte de valores. Observou que, em apenas meia hora, nada menos que dez carros-forte com malotes saíram dali. Todos protegidos com homens bem armados.
Jarbas, para quem tudo era cansativo, bocejava e decidira ir para casa. Ao acionar a ignição irromperam a bordo quatro homens portando revólveres, liderados por Anita, com uma 45 na mão e outra no coldre. Mesmo assim demonstrava fragilidade, apenas aparente. Ela olhou fixamente para eles e ordenou que saíssem e ocupassem um carro de apoio. Não tiveram tempo. Outra kombi ‘‘branco gelo’’ os recolheu e arrancou, distanciando-se rapidamente. Anita soltou um palavrão ao perceber que ficara desprotegida. Mais três homens deveriam ficar no carro dela. Algo dera errado. A gangue detectou o reforço da segurança na transportadora e decidiu abandonar a área, levando os homens que haviam deixado os malotes com Anita.
Gaguejando, perguntou-lhe o que fazer e ela ordenou que tocasse para determinado motel. Era uma tarde de sexta-feira. Ficaram no apartamento completamente à vontade. Até Jarbas, que dificilmente ficaria à vontade até mesmo num sanitário. Ele reconheceu que nunca desfrutara de horas tão felizes: cama confortável, apartamento aconchegante, comida saborosa e uma mulher, que ele teve coragem de elogiar: ‘‘Exuberantemente bonita e acolhedora’’. Ela pediu-lhe que não falasse com ninguém, mesmo no telefone. A porta tinha que permanecer fechada. Ela teria que ser informada se algum estranho fosse visto nas proximidades.Não saíram da cama no domingo. Eram sexo, comida e filmes eróticos. Numa pausa para descanso ela explicou seu envolvimento com a quadrilha e lamentou: ‘‘Sou produto do meio, da sociedade’’. Isso ela iria repetir num ‘‘manual de instrução’’ que lhe deixaria segunda-feira. Dentre os tópicos principais ela destacaria: ‘‘Conserve todo o dinheiro onde ele está. Se eu não voltar ou não telefonar até as 18 horas de segunda-feira caia fora. Alugue um carro e assuma a guarda dessa grana. Gaste-a como quiser, mas evite a todo custo que os quadrilheiros a descubram. Esta é uma chance de você ser feliz. Se for inteligente jamais precisará trabalhar’’.
Eram 20 horas de segunda-feira. Duas metralhadoras abrem fogo e a kombi perde o controle na estrada. Na edição de terça-feira vêm os pormenores com este título: ‘‘Loira bonita morre numa kombi metralhada’’.

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