Carlos da Silva
Depois de tanto esperar pelo dinheiro que raramente lhe chegava às mãos, Alfredo teve uma idéia que, sem ser brilhante, era ao menos inusitada: um time de futebol exclusivamente de animais irracionais. Por que não? Era só escolher o local para a sede, convocar as 22 feras, marcar dois ou três treinos coletivos e ficar esperando pelo adversário. Quis ganhar tempo e mandou um bicho-preguiça à cidade para uma série de providências. A primeira iniciativa foi convocar a assembléia de associados, onde seria apresentada a relação dos convocados e a formação da diretoria.
Jarbas, nomeado tesoureiro auxiliar da anta, ponderou que especial atenção tinha que ser dada ao setor financeiro. Sua idéia contemplava a criação de quantos times de futebol fossem possíveis. Era para a disputa de um campeonato mundial que, sem dúvida, renderia algum numerário para tocar o Pioneiro (era o nome do time dos bichos). Os entendimentos com a elite do futebol se estendiam satisfatoriamente, pois ninguém havia pensado em futebol de bichos. Tornou-se comum, em todos os lugares, metrópole ou aldeia, a criação de clubes. Consolidado todo o esquema de implantação e funcionamento das agremiações foi possível conversar sobre campeonato mundial. Buzunda apresentou a candidatura da sua cidade, Tirunda, para sediar as disputas. Ofereceu em troca o apoio à reivindicação de Teras, de acolher o campeonato seguinte. Os entendimentos se materializavam até com rapidez. A injeção de recursos financeiros adicionais tornou imbatível o selecionado baseado no Pioneiro. Aqui o problema mais grave, pois a complexidade do esquema exigia que o Pioneiro perdesse o jogo da partida final. Mas isso era inadmissível, pois era constituído dos melhores atletas-fera. E como explicar-lhes que deveriam perder o jogo? Virariam fera... E tudo era para beneficiar Tirunda.
Tinha que ser inventada a maneira de conter o ímpeto dos jogadores do Teras. Um deles, um cavalo, vítima de disenteria, foi parar no hospital. Aí nasceu a expressão dose cavalar. Outro escorregou numa escada e feriu um cotovelo. E cotovelo ferido não funciona. Um zagueiro, veado, engasgou ao tomar mingau e preferiu ver a disputa pela TV. No mesmo time um craque, um leopardo, caiu e enroscou os pés no pau da bandeira e exigiu cuidados médicos. Afinal, não é todo dia que leopardo joga futebol.
Tudo terminou como se previa. Dias depois alguém perguntou se ninguém havia dado explicação, pois ninguém entendeu. A cobra, postada inadvertidamente debaixo de um carro, falava alto: Agora vocês vão ter que me engolir...
Alfredo respondeu asperamente: Negativo. Não vamos engolir ninguém.
E continuou: Alguém viu se o bicho-preguiça voltou? O próprio disse: Se me atormentarem eu acabo não indo...





