Carlos da Silva
Não presta ser supersticioso. Grande parte dos que comungam da mesma cartilha omite o s colocado obrigatoriamente após o r. Ninguém falou se essa omissão é por medo ou desconhecimento. O pessimismo vai sempre de carona. Meu amigo Jarbas comprova as duas situações. Um dia antes de embarcar para a França ele passou debaixo de uma escada e lamentou profundamente. Poucos metros depois um irresponsável jogou aleatoriamente um balde dágua que caiu exatamente sobre ele, antecipando-lhe o banho que costuma tomar ao fim do dia. Não fosse contido por terceiros ele teria ido em busca do autor da safadeza. Aproveitei a deixa e comentei que, sob o ponto de vista do otimismo, pelo menos a água era limpa e clara. E observou: Sem aquela escada no meio do caminho nada teria acontecido. Ele não quis ouvir minha resposta: Haveria outra escada em qualquer lugar. Apenas coincidência. Estou na expectativa da chegada de Jarbas, que deve estar uma arara. Ele integrou aquela turma que ficou sem ingresso e hotel em Paris. Pelo telefone quis tranquilizá-lo: Ao menos dinheiro para garantir o rango você tem... Ele interrompeu: Virei otimista. Com a sobra do dinheirinho comprei uma escada, que me possibilitou ver, de local estratégico, todos os jogos que eu pretendia ver.
A superstição de Jarbas o transforma num desastre. Ele sempre tem uma tragédia aérea para contar. Inventa situações, nomes e endereços de vítimas que lhe dão autenticidade. Em recente viagem a São Paulo ele garantiu a uma senhora que o comandante do avião que nos levava tinha sobrevivido em recente desastre. Mas ele se recuperou. Vá à cabine e comprove. Ele lê os livros Seja um piloto de sucesso e Não haverá a segunda vez.
Em termos de pessimismo ninguém ganha de Alfredo. Quando Taffarel se concentrava na esperança de pegar aqueles pênaltis ele cobriu os olhos com as mãos, moveu a cabeça para um lado e disse: Não quero nem ver. Essas bolas vão entrar... Ao retornar de recente viagem ao exterior ele relatou a uma senhora idosa sua condição de supersticioso e completou É batata... Sobrevivi duas vezes... Também, pudera. Veja a ficha de embarque que me deram. Era a de número 113. A mulher se desesperou e queria porque queria trocar de avião.
Outra vez, retornando de Salvador a São Paulo, via Rio de Janeiro, Alfredo simulou ao ocupante da poltrona ao lado sua preocupação pelo barulho esquisito que teria ouvido de uma das turbinas. E, como autêntico supersticioso, bateu três vezes a madeira mais próxima. O passageiro entrou em pânico e, correndo, foi em busca de comprovação por parte do comandante, que claramente negou. Mas enquanto estacionava no aeroporto do Galeão o alto-falante da aeronave anunciou: Passageiros com destino a São Paulo devem descer e se dirigir ao balcão da companhia para troca de aparelho. Mangalô - três vezes.
Na opinião de Alfredo as pessoas não devem exagerar em suas preferências. O radicalismo não fortalece apenas, principalmente no local onde são exercitados. Esse raciocínio lembra a história da garotinha pessimista que, enquanto dava longas braçadas no Oceano Atlântico, protestou contra sua mãe: Não quero ir a Paris, mãe. Não quero ver a torre Eiffel. A mãe respondeu: Fique quieta, filhinha. Continue nadando...





