Carlos da Silva
Na compra de um apartamento o banco exigiu cinco quilos de documentos que sempre serão lembrados. Alfredo só faltou chorar, o que deixou de fazer por vergonha dos circunstantes quando o funcionário checou os itens e exclamou:
Cadê as certidões negativas das varas criminais e cíveis? O senhor está de gozação conosco? Alfredo abriu a boca para responder, mas preferiu sair correndo rumo ao Fórum, onde conseguiu descobrir que seus homônimos totalizavam 94, apenas em Londrina. Ao saber que Alf pretendia obter os documentos no mesmo dia, o distribuidor lamentou: Uma epopéia dessas não é possível em quatro semanas. Mas isso é outra história. Alfredo viveu um quarto de século no seu apartamento, pagou-o integralmente e agora recebeu convite da instituição de crédito, que, para renovar seu cadastro e aumentar o valor do seu cheque especial, exigia cópia da liberação expedida pelo Cartório de Registro de Imóveis, comprovante de residência no imóvel (serve a última fatura da Copel), original do último holerite (que pudesse comprovar que Alf ainda não se tornara mendigo).
Antes que ele respondesse à altura, a moça continuou: Ah sim, o senhor tem uma pendência no Serviço de Proteção ao Crédito. Tão logo o SPC o libere, peça-lhe um papelzinho para trazer aqui pra gente. Sem isso a pendência continua pendente. Origem da pendência: cerca de um ano atrás, ele solicitara a outro banco o encerramento de sua conta-corrente especial. Ao invés de informar que havia remanescente de uma despesa rotineira, ninguém disse nada e o saldo devedor foi se ampliando. Até a omissão (ou negligência) de banco lhe proporciona lucro. Voltando à exigência dos documentos: Alf comunicou por escrito que não só nenhum documento encaminharia, como não desejava renovar seu cheque especial. E (gato escaldado), graças a experiência proporcionada pelo outro banco, elaborou texto de cancelamento, com carimbo, data e assinatura. Até hoje Alf não foi importunado.
Até mesmo os maiores adeptos da burocracia vão ficar ruborizados de vergonha ante este exemplo de irresponsabilidade. Ernestina ganhou nenê, fora contemplada com excessiva produção de leite e acertou que iria ao hospital ceder a outro recém-nascido a quantidade necessária. Morava longe e era preciso levantar bem cedo para a viagem. Entrou numa fila a pedido de uma funcionária e, ao ser atendida no balcão, ajudou a preencher uma ficha e recebeu a notícia de que doadoras de leite só seriam atendidas das 8 às 11 horas e das 14 às 18 horas. Horário incompatível com seu esquema. A mulher seguinte na fila também lamentou a situação e sugeriu que Ernestina fosse a determinada maternidade cujo banco de leite aceitaria o alimento. Ela agradeceu a indicação e saiu à procura do ônibus que a levaria à maternidade. Era hora de almoço - da maioria das pessoas, mas não dela - e ela teria que voltar no dia seguinte, pois sua ficha de doadora tinha que ser assinada e carimbada pelo médico que a atendera no parto. Cadê o médico? Ele só trabalha ali na parte da manhã... Onde já se viu querer doar leite à tarde? Bem feito! Os bebês carentes do alimento que se virem com o produto em pó. Custa quase nada uma lata...





