Carlos da Silva
Laurinda era exemplo de ciúme e honradez. Não suportava a ausência de Alfredo um dia sequer. Por volta das 9 da noite ela começava a se preocupar e sugeria aos parentes que acionassem a Polícia para localizá-lo. Quem sabe ele teria sido conquistado por uma das trapezistas do circo que ele elogiara no dia em que foram ver o espetáculo. Laurinda virou uma arara, não admitindo que ele dissesse aquilo na presença dela. Alfredo passou a se perguntar se valia a pena suportar situações que só contrariedades traziam. Ele ficou assim, amuado, até que Valério lhe deu uma boa idéia: criar uma situação de risco e simular o pior que isso significava: a morte. Laurinda abominava até a simples menção. Depois era só desaparecer do mapa, de preferência com algum no bolso, para garantir eventual incursão no exterior. Os dois estrategistas decidiram arquivar esse plano e optar por outro, menos radical.
Numa noite Alfredo apareceu carrancudo e não encarava aquela que tanto o amava. Quando não olhava melancólico para o horizonte, suspirava dolorido.
Laurinda não suportou: ‘‘Você vai dizer o que está acontecendo ou terá que dar explicações a papai...’’ Era filha única e os pais a acostumaram como tal. Bastava-lhe abrir a boca. Mas desta vez ela a mantinha fechada. Dia seguinte ele compareceu de novo com ares de tristeza. A romântica Laurinda o recebeu preocupado e superficial: - ‘‘A coisa é simples, meu bem. A gente vai vivendo e o que seria nosso entretenimento é sempre jogado para o futuro. Nossa felicidade está em viver hoje. Estamos perdendo nosso precioso tempo. Ao invés de discutir aqui, por que não passarmos horas agradáveis num desses motéis que todo mundo aconselha?.’’ Antes que ela perguntasse de novo ‘‘quem você pensa que sou?’’ ele levantou as mãos e pediu-lhe apenas que pensasse, sem resposta pré-concebida. Ele percebeu que desta vez ela se sensibilizara e quase chorou. Pela primeira vez prometeu que no dia seguinte daria resposta. Já era um avanço. E completou a amada: ‘‘Mas essa tristeza terá que desaparecer desse rostinho...’’
Alfredo sabia bem como abater aquela fêmea. Não seria verdadeiro dizer que ele mal pudera dormir. Dormiu como cão de caça esperando na barraca do dono.
Aplaudiu a decisão positiva, inteligente dela e, exultante, confessou: ‘‘Será uma das minhas grandes conquistas. Todos os homens da terra teriam inveja se soubessem o significado disso’’. A partir de então ela passou a insistir no casamento e fixou prazo, um pouco exíguo: ‘‘A gente tem que ir devagar nessas coisas, querida. Vou me submeter a outro exame médico para ver como vão as coisas com meu coração e pulmões. Talvez não valha a pena. E se eu morrer? E se eu for a óbito, como dizem os médicos? Sabia que não posso levar susto? Mas topo a parada e caso. E é bom você dizer isso ao seu pai. Ele mandou recado dizendo que deseja falar comigo. Sabe o que isso significa?’’
Dia seguinte, para oficializar o pedido de casamento foi providenciado um almoço, que deveria começar lá pelas doze horas. Mas às catorze o noivo ainda não estava presente e cada um imaginou uma desculpa. Mas foi a noiva quem recebeu a informação, via Polícia, que Alfredo morrera vítima de problema cardíaco. Ainda estava quentinho. Ela continuou não acreditando. ‘‘A senhora não quer vê-lo?’’ Ela, irritada e nervosa, respondeu que não se deve brincar com coisa séria... O ‘‘sogro’’ confirmou. Poucos minutos antes fora informado mas não pretendia dar a notícia à filha. E foi considerando: ‘‘Aquele tonto, que imaginou uma morte cheia de pompa, só não será enterrado como indigente em homenagem à minha filha. Desejara morrer como alpinista no Himalaia, bala perdida no Morro do Jacarezinho, no Rio, ou desastre de avião que voava para o exterior. Ele teria rejeitado a idéia de problema cardíaco.’’

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