Carlos da Silva
Carlos da Silva
Independência financeira
O plano foi primorosamente executado. Alfredo e Heleninha não tinham do que se arrepender. Valeu a pena contornar as dificuldades no meio do caminho. Eles contavam até mesmo com o pior, pois correram o risco de levar chumbo e partir desta para a melhor. Mas tiveram sorte do começo ao fim do assalto. Parecia que a segurança não dispunha de armamento adequado. Agora o esquema mandava permanecer no refúgio. Nem Heleninha deveria se expor, pois um retrato falado poderia revelar seu rosto. As características do imóvel permitiam até mesmo tomar sol ou descansar à sombra de árvores frutíferas. Com essa dinheirama nem seus bisnetos precisariam trabalhar. Viveriam no bom e no melhor, com dinheiro sobrando. Desfrutariam da grana como nunca. Desde garoto ele precisou trabalhar para garantir o alimento. Sua vez chegara.
O lamento de Alfredo parecia não agradar Heleninha, que de vez em quando torcia o nariz, dando mostras de que o choro era desnecessário. Ela também vivera as agruras de uma vida difícil. Agora toda a garantia de uma vida tranquila estava ali, à frente do casal. No dia seguinte concluiriam o bunker, que serviria de abrigo para o cofre, com o dinheiro, produto do assalto à sede da empresa transportadora de valores, mais de 300 mil reais. O trabalho de alvenaria exigia cobertura reforçada e blindagem para suportar tiro de bazuca. Terminada a missão não poderia existir nenhum indício de que exatamente debaixo da latrina do banheiro estava guardado um cofre de aço com milhões que lhes trariam uma vida nova, sem preocupação.
Nem bem terminava a obra chegou a informação de que policiais já estavam no circuito e, como não haveria resistência, a prisão era iminente. O plano consistia na guarda do dinheiro, rendição e cumprimento da pena, que seria reduzida graças a dispositivos legais. Só então começaria a utilização do dinheiro.
O próprio Alfredo estava surpreso com a facilidade. Os policiais levavam só armamento convencional e não pareciam muito interessados em recuperar o cofre cheio de dinheiro, que foi direto para o banheiro da casa na chácara. O flagrante foi lavrado. O acusado assistiu a tudo e quase desmaiou ao constatar que no cofre havia somente cédulas carimbadas e fora de circulação. Eram da época do cruzeiro novo. O delegado Lupércio explicou que não serviriam sequer para o golpe dos três por um. Por que Alfredo? Porque agentes da Polícia infiltrados na marginalidade captaram informações acerca do assalto que ele iria perpetrar. E aconteceu. Lupércio confidenciou: O cofre que seu pessoal roubou era boi de piranha. Simultaneamente, na avenida paralela, uma ambulância, com sirene ligada, conduziu os 354 mil reais quentes. Enquanto sua quadrilha e o dinheiro frio rumavam no carro blindado para a chácara, nossa gente seguia direto com o cofre autêntico, entregue meia hora depois ao banco.
Alfredo foi condenado a dois anos. As atenuantes (bom comportamento, profissão definida e domicílio conhecido) levaram-no para casa até mais cedo do que ele imaginara. Heleninha pensou diferente e deixou um recado: Não deu pra esperar a nossa independência financeira. Fui embora com o pedreiro. Se sobrar algum você saberá onde me encontrar.





