Carlos da Silva
Carlos da Silva
Incompatibilidade de gênios
Quatro horas da manhã. Tonhão entra sorrateiramente no barraco, porta entreaberta deixando penetrar o luar. Ele esperava surpreender Arminda na cama, à espera dele. Dela ficara o perfume barato de dar dor de cabeça. Dor era o que nenhuma bebida alcoólica provocava nele. Esse detalhe robustecia seu argumento ao tentar justificar o maldito vício. Quanto mais ela demorava, mais cachaça ele bebia. Até que se recostou no velho sofá, onde roncou e babou. Horas depois abriu lentamente os olhos sabendo da presença da mulher, graças ao barulho que normalmente se faz numa cozinha quando se prepara o café matinal, que ela preferia servir sobre a velha mesa de madeira.
Ele lavou rapidamente os olhos remelentos e bocejou ao trocar a camisa branca amassada por outra mais decente. Ao servir-se de leite, enquanto ela passava margarina no pão que iria comer, Tonhão começou a ladainha de sempre: Vá explicando sua ausência a noite inteira. A madame podia ao menos deixar recado com alguém ou num papel. Mas com cara de besta eu não vou ficar... Ela contou que fora assistir a um ensaio da bateria na quadra da escola. Santina podia comprovar... Ele completou: Aquele biscatão só pode comprovar uma coisa que eu sei. Ela jamais poderá dar um bom exemplo.
Ao encerrar a discussão ele advertiu: Então estamos conversados. Que não haja mais motivos pra eu ficar nervoso. Caso contrário, a bolacha vai comer. A propósito, preciso de grana. Uns dez reais bastam pra eu almoçar na cidade. Ela disse que não tinha dinheiro disponível e explicou que o que economizara durante a semana era destinado à compra de um livro que Toninho precisava na escola. Não houve jeito. Suspirou e prometeu: Vamos ver o que se pode fazer...
O dia parecia passar mais rápido. Ambos foram mais cedo para casa. Encontraram-se por volta das três da manhã. De novo o tempo esquentou. Ele exigia que ela explicasse onde passava as tardes e noites e o que fazia para conseguir dinheiro. Ela chorava desesperadamente quando ele começou a esmurrar-lhe o rosto. Não havia como impedir a violência. Restava gritar por socorro. Seo Francisco, que morava ao lado, acordou com os gritos e pedidos de socorro. Embora temendo a rudeza de Tonhão, investiu contra ele e pediu-lhe que acabasse com aquilo. Embora mais bêbado, Tonhão concentrou suas forças para evitar o adversário, que fora defender Arminda. Mas ele era forte demais e administrava a luta embora embriagado.
Tonhão dava mostras de cansaço e a certa altura tropeçou nos pés e caiu, batendo a cabeça num dos queimadores do fogão a gás, onde havia estado uma caneca de alumínio com água para o café. O recipiente caiu e a água espalhou e apagou o gás, que continuou escapando direto para as narinas. O vizinho imaginou que o grandalhão não precisava de nenhuma ajuda e carregou Arminda para fora da casa, onde constatou que o estado geral era lamentável. Por isso decidiu levá-la a um pronto-socorro próximo dali. Ao voltar observou um grupo de curiosos olhando para o interior da casa e policiais se movimentando. Um deles perguntou: O que a senhora era dele?





