No princípio Alfredo não acreditou. Mas era verdade que ele tinha Cassandra nos braços. Apertou-a junto ao seu corpo e sentiu que ela respirava sofregamente. Mas tinham que levá-la para um repouso. Como despedida deu-lhe demorado beijo. Fora um dia estafante. Como em todas as tardes ela e quatro companheiras se posicionavam numa vitrine de loja de departamentos e demonstravam a roupa que a clientela deveriam usar.
O romance começou de brincadeira. Alfredo trabalhava como fiscal numa perfumaria em frente. Numa posição estratégica observava a movimentação nos dois estabelecimentos comerciais, até que certo dia descobriu Cassandra na vitrine, com as amigas, simulando os gestos de manequim. Quanto mais se aproximava dela, mais admirava a beleza do rosto, dos cabelos e do corpo. Para ele não havia qualquer imperfeição ou simples detalhe que o desagradasse. Tudo era belo nela e nas amigas que a acompanhavam.
Alfredo estava consciente do problema que vivia. O amor por Cassandra se tornara irresistível, incontrolável. Raciocinou que talvez fosse melhor dar um tempo para ver o que aconteceria. Sim, sim. Mas era tarde demais. Sobreveio o desespero só porque ela e as amigas haviam sido substituídas por tecidos e confecções dispostos em armações de madeira. As moças, que só faltavam falar, iriam fazer isso graças a um computador a que seriam conectadas. Mas essas informações precisariam ser checadas. Para tanto ele utilizaria os conhecimentos no interior da loja. Foi direto para um pequeno depósito, onde Cassandra e suas amigas haviam sido jogadas. Agachou-se e a levantou. Enquanto a examinava não refreou seu ímpeto e pôs-se a beijá-la com sofreguidão. E não dominou seu desejo...
Dia seguinte, de manhã, poucas pessoas na loja. O depósito onde Alfredo realizara seu sonho continuava com a porta semi-aberta como ele deixara. Entrou sorrateiramente, vestiu-a como se fora uma bela mulher que acabara de se levantar. Cobriu-lhe as partes pudicas e a abraçou. Se alguém perguntasse algo, diria que a levava para conserto. Mas o esquema não funcionou. Justamente no centro da seção de vestuário feminino, um segurança o deteve e indagou sobre a ordem de serviço: ‘‘Sem essa autorização do seu chefe o senhor não vai a parte alguma.’ E fez menção de tomar-lhe Cassandra, mas Alfredo puxou aquele corpo para perto de si e advertiu: ‘‘Não toque nela...’
Outro espetáculo se desenrolava na rua, diante das vitrines. Populares se aglomeravam, cada vez mais e alguém avisou a Polícia que estava ocorrendo um ‘‘assalto seguido de sequestro com pelo menos três reféns...’ Essa informação foi passada ao segurança por um subgerente, que aconselhou medidas mais drásticas para forçá-la a deixar Cassandra em paz. O segurança entendeu que iniciativa mais drástica seria tirar do coldre o revólver e empunhá-lo só para assustar o ‘meliante’. Lá fora um policial entendeu que a coisa estava se agravando e também empunhou sua arma. Foi aconselhado a pedir o comparecimento do grupo de elite. Seria prudente evitar o inesperado. E se houver incêndio? Vamos chamar os bombeiros? O comandante mandou contingente suficiente para impedir a fuga do ‘‘homicida’’. O pessoal da televisão escolhia lugares estratégicos para registrar os lances mais emocionantes, até mesmo da entrega da ‘‘criancinha esfaqueada’’. Um oficial do grupo de elite gritou para que seu pessoal se preparasse.
Alfredo não podia esconder as lágrimas. Cansara de explicar aos policiais mais próximos a realidade dos fatos, mas eles pareciam não se importar. Outro policial, com equipamento mais moderno, se aproximou do ‘‘sequestrador’’ o máximo possível, enquadrou Alfredo e esperou uma vacilada dele. Não demorou. Ele se afastou ligeiramente do corpo de Cassandra, deu um gemido e levou a mão ao peito tentando estancar o sangue, que manchava os seios daquela que ele tanto amara. Sequer ouviu o ‘‘pfuuu’’ que o projétil fez ao penetrar no boneco de plástico.

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