Quis o destino que Alfredo ocupasse a cadeira ao lado de Renata. Verdade seja dita: no princípio, antes de iniciar o infindável diálogo, o que os atraía não era necessariamente lisonjeiro. Em ambos havia em desenvolvimento um processo de rejeição e se perguntavam por que estavam ali se ambos não eram empresários ou proprietários de haras. Sequer haviam montado cavalo de corrida, muito menos matungo, e em termos de aquisição nem pensar. Até uma raspadinha estava fora de cogitação. Souberam mais tarde que a aproximação fora arquitetada por um amigo comum, Jarbas, que explicou: ‘‘Tinha convite sobrando e os dois estavam disponíveis’’.
Foi surpreendente o entusiasmo de Renata ao ouvir de Alfredo que dentre as melodias que ele mais apreciava estava ‘‘Morte e Transfiguração’’, de Richard Strauss. Ela confidenciou que há muito martelava seu piano, mas estava em dúvida sobre a autoria. Para dirimi-la, voltariam a se ver. A idéia era jantar e sessão musical no apartamento de Renata. Para ‘‘aprender o caminho’’ naquela noite iriam no carro dele. Ao parar o veículo próximo do prédio de apartamentos em que ela residia, ele pensou que rolaria um clima de pré-festa na noite seguinte. Ou ao menos abraços, mas ela mantinha-se arredia. E desvencilhava rapidamente dos braços dele. Beijos, nem pensar, além da promessa de melhor colaboração no encontro seguinte.
Alfredo foi pontual, apesar do exaustivo dia de trabalho. Surpreendeu a parceira com flores e recebeu dela a execução, ao piano, da música que ele mais admirava. Ela estava elegante, bonita, sorridente, feliz, mas com ares de preocupação, principalmente quando se abraçavam e Alfredo se preparava para cobrir de beijos seu rosto. Na face, sim. Na boca, não. Agora só faltava ela exigir que as luzes fossem apagadas. Não deu outra. ‘‘Sinto vergonha, bem’’. Mas a maior parte das iniciativas foi tomada por ela, que o deixou empolgado com atos cansativos e não convencionais. Agora ele entendeu por que ela evitava seus beijos ardentes. ‘‘Você devia ter explicado detalhes da compensação’’.
Final do primeiro tempo. Intervalo para descanso. Frutas, bebida e salgadinhos. Do jeito que ela direcionava os instrumentos não havia quem resistisse... No início do último ato Alfredo esperava que seria de um jeito, mas gritinhos contínuos de dor aumentavam a intensidade e a sensação de prazer. O cuidado que até então ela tomara foi por água abaixo. A posição e a luminosidade contribuíram para revelar um dos poucos detalhes que podem denunciar a verdade sexual. Renata sentara sobre um travesseiro e Alfredo ainda se mantinha deitado refletindo sobre o que iria dizer e o quanto poderia bater.
Ao voltar do banho olhou para a parceira e desabafou: ‘‘Você foi quase perfeita. Ou perfeito. Não fosse o gogó estaríamos todos os dias na cama. Mas você me traiu. Desapareça da minha frente. Se nos encontrarmos de novo será na porrada...’’ Renata - ou Sebastião - interveio para denunciar: ‘‘Quem armou tudo foi Jarbas, que até me deu algum. Disse que com essa cilada ele se dava por satisfeito’’.

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