Carlos da Silva
Alfredo nasceu predestinado a conviver com mulher estrangeira. Pálido exemplo foi descrito pelo jornalista Wilson Silva ao apresentá-lo ao então embaixador Lincoln Gordon, dos Estados Unidos: Ele é um modelo eloquente de coexistência pacífica. Tem diversas amigas norte-americanas mas casou-se com uma russa. Era expressão da verdade. Alfredo lembra como tudo começou. Numa virada de fila para comprar ingresso num cinema ele deu de cara com uma jovem recém-chegada ao País. Não falava uma palavra sequer em português, além de Mi não falar a idioma. Soy hungarra. Quase sempre nem é preciso falar outra língua além da criada pelo amor. Para fazê-la entender isso investiu em inúmeros entretenimentos. E no mesmo dia levou-a ao apartamento para as primeiras lições. Dias depois ela compareceu em companhia de uma prima, belíssima e elegante, indo direto ao assunto: Você já deve saber o motivo desta visita. Esta minha prima ainda ignora o significado da presença de uma jovem em casa de homem solteiro. Ela gosta de você e não pretende antecipar nada antes do casamento. Entende isso como lógico e natural no país dela. Alfredo administrou a circunstância ao longo de meses e nunca mais falou na exigência social. Perderam-se ao longo do tempo.
O destino revelou em seguida a empertigada canadense que um dia surpreendeu ao indagar se aqui não havia o costume de caçar patos no campo. Ao invés de explicar, Alfredo pegou o boné. A vaga foi preenchida por uma jornalista dinamarquesa, que colhia dados sobre prostituição. Fez uma série. Os amigos e colegas só acreditaram quando ela mostrou comprovantes da publicação. Terminou a série e ela nunca mais voltou.
O fato mais grotesco que envolveu Alfredo foi exatamente sobre a cama. Sua companheira argentina adiava a realização do que ambos ansiavam. Após um envolvimento forçado de mãos, pés e corpo, Alfredo exibia a última e menor peça íntima. Naquele momento o marido dela abriu a porta do apartamento e, sorrindo, seguiu no rumo da cama ocupada. Alfredo, desesperado e sem saber o que dizer ou fazer, sentou-se pelado na cama e indagou o motivo de tanta risada. O marido respondeu que não se importava, pois já soubera do desejo latente da esposa, que considerou natural. E explicou: Assim, explicadinho, o marido não é o último a saber...
O desempenho de Alfredo iria se configurar nos Estados Unidos. Ele conhecera Rose numa perfumaria. Os dias passavam e ela parecia não entender sua pretensão. Convidados por uma colega dela, foram comemorar o aniversário de um adolescente. Na hora marcada, todos foram se retirando e Alfredo acenou com a possibilidade de ele dar-lhe carona, pois o apartamento dela ficava no meio do caminho. Ela concordou com o célebre Por que não? e parecia menos arredia até mesmo quando ele a convidou para um drinque. Subiram e ela não o deixou sequer entrar. Ao contrário, manteve entreaberta a porta e disse: O senhor tem um minuto para deixar este prédio. Caso contrário chamarei a polícia! Ele nada disse, tomou o elevador e nunca mais voltou a passar naquela rua. Mesmo que fosse para um uísquinho.





