Carlos da Silva
Alfredo percebeu que os deuses estavam se tornando pródigos com ele, que sempre fora desprovido de sorte em relação a mulheres. Mudou-se para a casa ao lado da sua um novo casal, não necessariamente jovem, pois o marido era como se fosse seu pai. De qualquer forma, Alfredo não dissimulava sua alegria ao observar os dotes físicos de Esmeralda. Por isso ofereceu-se para ajudar no transporte e arrumação dos pertences. Genésio não escondeu sua satisfação, pois seriam dois braços a mais para completar a tarefa, deveras desagradável. As coisas do quarto nem organizadas estavam e suas tentativas começaram. O colchão estava jogado sobre a cama, Esmeralda tropeçou num sapato no meio do caminho e caiu em cima de Alfredo. Mas ele notou o colchão e não se esforçou para apanhá-la nos braços. Mais tarde, sob o chuveiro, ela solicitou a ajuda dele, pois pensara que o fio não havia sido conectado. De novo ela quase caiu e não foi amparada por ele.
Por recomendação de Genésio, se dispôs a mostrar o posto de gasolina que não tinha o costume de batizar o combustível. Tão solícito que foi dirigindo o carro de Esmeralda. Ela tinha mania de colocar a perna em cima da alavanca do câmbio. Para tirá-la pediu ajuda de Alfredo, que suspirou de alívio. Outro dia ela esqueceu de apanhar uma toalha de banho. Ele foi tão rápido que nem a percebeu em pêlo. E se perguntou se isso não seria estratégia para envolvê-lo. Ela lhe parecia convidá-lo a um assédio sexual, que ele descartou em vista das implicações legais. E conjecturou que, curiosamente, as coisas só aconteciam quando o marido não estava em casa ou proximidades.
Alfredo dera tudo de si para armar a piscina de plástico. E lá foi sua solicitude. Sem querer tomou vários banhos, apesar de sua propensão a anomalia no sistema respiratório. Dia seguinte não saiu da cama e Esmeralda levou-lhe um bule de chá. Após se surpreender com o suor, ela apanhou outra camiseta e o ajudou na troca. Como se fora acidentalmente, passou a ponta dos dedos na região pubiana. Aconteceu o que tinha de acontecer, mas foi contido por Alfredo, que fez de conta que não entendeu.
Outro dia ela se preparava para ir a reunião de empresárias e foi informada pelo marido que estava impossibilitado de ir. Tudo bem. Alfredo o substituiria. Ele esticou o braço para o impulso no fechamento da porta e, no meio do caminho, o rosto dela encostou levemente no seu. Mas ele não entendeu. No meio do caminho, luminosos indicavam a localização de motéis. Ela contou que ainda não conhecia o interior de um.
Alfredo tomou o caminho da sua casa e explicou: Há muito faço de conta que não entendo. Não é possível continuar nessa falsa ignorância. Que vá para o inferno qualquer punição legal em assédio sexual. Ela explicou que a pessoa que lhe fazia companhia era na verdade seu tio, que a criara desde a morte de seu irmão e cunhada, em acidente aéreo. A partir de então viveram noites felizes.





