Carlos da Silva
No tom e termos adequados, o mais discretamente possível, um funcionário do condomínio onde moro quis saber quanto esta crônica representa, em termos pecuniários, para o autor. Expliquei-lhe, como quem sai pela tangente, que é tudo relativo, pois vários fatores são considerados, de forma a contemplar satisfatoriamente nem oito, nem oitenta. Refleti melhor e decidi arranjar uma resposta, considerando também os rigores da Receita Federal. Disse apenas uma quantia que reflete a realidade em um chutômetro.
Alencar (o nome do curioso) arregalou os olhos e bateu uma mão contra a outra, querendo dizer que se tratava de valores surpreendentemente altos. Ele deu a entender que gostaria de continuar o bate-papo, talvez pretendendo lucrar algum. E foi direto ao assunto: Eu também sou bom para arquitetar pequenas histórias, mas não sei escrever. Por isso proponho uma sociedade. Eu vou contando os causos e o senhor vai escrevendo. No fim a gente racha o lucro, que não precisa ser tão alto. Descartei a possibilidade alegando que nunca experimentara a idéia, que até poderia funcionar. Argumentei que, por via das dúvidas, seria bom que ele continuasse desempenhando a honrosa tarefa, até que eu concluísse o raciocínio.
Quase sempre aparecem-nos sugestões criadas por iluminados, que aspiram situações inéditas, práticas e rentáveis. Tomara que as realmente significativas nos envolvam. Que não apresentem sinais evidentes como os daquele deputado que acaba de dar com os burros nágua. Para onde deveriam ir os desonestos, como um conhecido cujo lema era Sempre fomos afeitos ao diálogo. Ou outro parlamentar, que enfatizava: Aos amigos, os benefícios da lei. Aos adversários, os rigores dela.
Nenhuma conexão entre o último parágrafo e as digressões seguintes: Até pouco antes de a Redação da Folha ser contemplada com a informática, muitos de nós ainda sentíamos frio na espinha só ouvindo falar nessa tecnologia. Raramente ou nunca se ouviu dizer que o equipamento seria dominado imediatamente pelos pobres mortais. Quem sofresse de algum problema físico podia tirar o cavalo da chuva. Dizia-se até que o teclado de cada terminal costumava bloquear o desenvolvimento do raciocínio do operador. A gente não ousava sequer conjecturar sobre quando seria a introdução das máquinas. E olhávamos de soslaio na esperança de ser confortados com a informação de que demoraria um pouco mais, etc.
Imagine nossa preocupação quando, ao entrar na Redação, fomos comunicados que deveríamos descer para o setor de treinamento, pois teríamos a primeira aula que nos capacitaria a utilizar o computador. Aprendemos a gostar dele também e reconhecemos agora que ele até nos estimula na elaboração do texto. Não acreditaríamos se nos dissessem que rapidamente nos acostumaríamos a ele.
Reminiscência
Ele pode ter esquecido, mas algum dia, na Redação da Folha, aproximou-se de Osvaldo Militão um cidadão, alto e simpático, que pediu licença para redigir a nota esportiva seguinte cujas anotações Militão desfiava. Após cumprimentá-lo Militão redigiu após o último parágrafo: Este texto foi redigido por Pascoal Carlos Magno, renomado ator e autor teatral, escritor e diplomata. Após a morte nunca mais se falou nele.





