Alfredo se fantasiou de palhaço no Carnaval. Nem era preciso, mas decidiu que incorporaria também aquele ar de apalermado que todo palhaço tem. Até que ficou bom. Alícia deveria ter gostado também, mas ela informou que antes de ir ao clube passaria primeiro na casa de amigas. Não havia chegado. De certa forma foi até bom, porque Alfredo queria que simples sorriso e troca de olhares fortuitos avançassem na paquera que mantinha com uma jovem fantasiada de odalisca, que emitia constante sinal de que o caminho estava aberto, mas a timidez prejudicava seu ataque final. Precisava de um pouco mais de coragem. Admitia que até o nível de conversação havia declinado com o passar dos anos, que a cada dia pesavam mais. Mas ele considerava que ao menos teria que tentar. Ninguém o perdoaria se deixasse passar em brancas nuvens. Por isso se atreveu.
O ímpeto que acompanhou seu ‘‘oi’’ dirigido à jovem era inteiramente desanimador. Mas ela parecia compreender e tocava a bola pra frente. Seguiram-se o cansativo pula-pula, beijos e abraços, etc. Esse etecétera foi mais difícil do que se imaginava. Não contando o fator desempenho de ambos, que pareciam não gostar de falar ou não conhecer direito nosso idioma. Apreciavam monossílabos. Consideravam que onde há amor existe o entendimento, que dispensa muito diálogo. E os procedimentos preliminares avançavam, mas até certo ponto. Exigiu jeito e tempo, mas a ida ao motel prosperou. Na viagem ela o estimulava a falar sobre aspectos do desempenho do marido. Ele se continha, honrando o acordo entre ambos segundo o qual as particularidades de ambos só interessavam ao casal.
No motel parecia que ambos só concordavam num ponto: o de que manteriam ligado o televisor, com filmes eróticos. Ela exigia que as lâmpadas permanecessem apagadas e ambos não tirassem a fantasia, mantendo oculta a identidade deles. As peças, grudendas no suor do corpo, eram desconfortáveis mas ele decidiu que respeitaria o desejo dela. Ambos não revelaram, mas a dificuldade proporcionada pela roupa causava-lhes uma sensação agradável, talvez pela impressão de estarem forçando a situação, sem tempo de se despir.
O êxtase, indissimulável na mulher, levou Alfredo a comparar o desempenho dela com o de Alícia. Curiosamente as manifestações post-ejaculatórias de ambas eram incrivelmente parecidas. Até mesmo o suave perfume das áreas pudicas. Só faltava observar se na coxa esquerda da odalisca havia também uma verruguinha, que mais parecia pequena mancha. Ele estava disposto a tentar descobrir. A estratégia era começar um delicado beijo em volta do umbigo, subindo até o lugar equivalente ao mantido por Alícia. Teria que ser rápido, para que ela nada percebesse.
Olhos já acostumados à penumbra, Alfredo ficou perplexo ao comprovar que aquela mulher era a mesma Alícia dos seus sonhos e com quem vivia há mais de dez anos. Ele parecia ter aprendido a lição. Mas havia uma pendência: quando ela decidira ir com ele ao motel.

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