Carlos da Silva
Continue folgando comigo que qualquer dia eu pago com a mesma moeda...
A frase, que mais parecia mensagem cifrada, significava que Alfredo estava na iminência de receber dolorida chifrada. Maria tinha razão, mas ele sempre fora assim, não confiável. Qualquer mulher que lhe desse um sorriso -não precisava ser lânguido - teria jantar e cama no final daquele dia. Eles se amavam ardentemente e ninguém poderia imaginar que aquele romance pudesse ter fim, até melancólico. Nem os protagonistas da história.
O fim estava começando: ele dissera que pernoitaria numa cidade próxima, mas a mentira cabeluda caiu por terra. Maria o flagrou nos braços de Heleninha. E ficou furiosa: Se fosse uma mulher menos indecente. Mas deitado com essa pilantra! Pois jamais ficarei onde essa vagabunda estiver. Que nada. Parecia que mulher nenhuma rejeitava o aconchego do abraço de Alfredo, que argumentou:
Fica tranquila. Ela nada levou do que sempre reservo para você. Sequer um beijo pra valer.
- Por esta vez passa. Tudo certo, mas da próxima vez não vou perdoar. Mas, nem bem decorrida uma semana, Maria retornou ao apartamento para apanhar a carteira com dinheiro que esquecera. Surpreendeu no pulo seu amado em decúbito ventral e Soninha, sua vizinha, em decúbito dorsal. Foi outra chiadeira: - Eu avisei. Arrumo minhas coisas agora e em meia hora estarei na casa da mamãe. O pior é que você está descendo de qualidade. Imagine deitar com essa rameira...
O tempo ia passando e Alfredo não conseguia demover Maria. Seu vocabulário estava esgotado, mas não sensibilizou ninguém. Numa noite dedicada inteiramente ao alterocopismo, Alfredo gritou para os amigos em volta:
- Eureca. Vou transmitir-lhe minhas mensagens via pára-choque do caminhão. Até a curiosidade dela ele despertou. Ao retornar no dia seguinte, ao descer a principal avenida, o veículo (que puxava extensa fila) ostentava no pára-choque: Amo-te, Maria. Dia seguinte: um advogado radical foi a Alfredo e o advertiu: - É um desrespeito à honra da jovem. O veículo não pode ter aquela inscrição. Ajuizarei uma petição ao meritíssimo se aquelas letras não forem apagadas.
Foram apagadas, mas no lugar delas ele deixou esta frase: Deus no céu, Maria na terra. Nova visita do advogado: Seu atentado à moral ilibada da jovem persiste. Apague as letras ou... E assim sucessivamente. Alfredo procurava dar vazão ao sentimento escrevendo: Prefiro a morte, Maria, Maria, minha Maria etc. O advogado foi taxativo: Tenho uma ordem de prisão contra o senhor. Só falta referir-se ao nome da jovem. No dia final, extensa fila de veículos na avenida principal e, nas calçadas, centenas de curiosos, que também se decepcionaram. No caminhão a última frase: Volte para mim ainda hoje. Amanhã será tarde demais.
Maria o procurou para despedir-se e explicou: Enquanto você me traía com outras mulheres até que dava para suportar. Mas dormir com Abigail é demais. Um dia você declarou que dormir com homossexual seria a última coisa a fazer. Se não sabia quem era Abigail? Fique sabendo agora.





