Carlos da Silva
Aquele ônibus tinha tudo para realizar uma viagem como outra qualquer. Veículo novo e confortável, motorista capacitado, solícito e simpático. Passageiros ávidos para dormir o trajeto inteiro. Ao amanhecer do dia seguinte deveríamos desembarcar em Curitiba. Parecia coisa ensaiada: nem bem o coletivo deixou o perímetro urbano, o bebê do primeiro banco começou a chorar. No princípio parecia buzina que, se misturada ao barulho do tráfego na cidade, se diluiria. Mas estávamos com o pé na estrada e prevaleciam o ronco dos motores e o atrito dos pneus no asfalto. No princípio o choro, como diria um maestro italiano, ia de moderatto e vivacci, até estacionar no vibranti ma non troppo. A mãe, jovem e bonita, fazia tudo que lhe estava ao alcance, mas o garotinho, oito meses de idade, não parecia colaborar. Aliás, não dava a mínima para o palpite de passageiros preocupados.
Um cavalheiro, que parecia vítima de bronquite e que aproveitava a deixa do bebê para tossir, ponderou que poderia até mesmo ser cólica intestinal ou desejo de mamar. Após relatar a grande descoberta perguntou por que a criança não tinha uma chupeta. A bonita mãe respondeu que o problema era exatamente esse. Desde quando o ônibus iniciou viagem a chupetinha desaparecera, para decepção do nenê. Quando ninguém falava a criança parecia aquietar-se. Meia hora depois, um infeliz, sabe-se lá porquê, buzinou insistentemente seu carro, incomodando a todos. Principalmente ao bebê, que iniciara nova sessão de choro que agora parecia agudo, estridente e contínuo, como se lhe doessem os intestinos.
Um dos líderes dos sem-dormir sugeriu ao motorista uma rápida parada em Ponta Grossa, para aquisição de outra bendita chupeta. Nem bem o ônibus parou, congestionando a porta do veículo, os sem-dormir se perguntavam onde e quem iria efetuar a compra. Aproximou-se uma viatura da Polícia Militar e um membro da guarnição desceu e, desconfiado e olhando de lado, perguntou o que se passava e se prontificou a auxiliar, pois àquela hora uma só farmácia deveria estar de plantão. Instantes depois reapareceu o carro da polícia com o passageiro. Despedidas, agradecimentos, ônibus de novo na estrada e santa ignorância. Ao invés de chupeta, o infeliz comprara bico de mamadeira e chupeta de assobio. Alegou que fora a única coisa encontrada na cidade naquela hora. Nem uma passou pelo teste dirigido pelo bebê. Ao final da pesquisa ele parecia chorar ainda mais alto como forma de protesto, contra o quê ninguém sabia.
Os poucos que dormitavam no ônibus se assustaram com um grito da mãe simpática e constrangida do garotinho: Lembrei. Tenho outra chupeta, igualzinha, na mala colocada no bagageiro. Por favor, motorista. Tomara que seja a última vez que incomodo a todos... Três passageiros se prontificaram ajudar. Ela orientava sobre onde buscar na mala e eles apalpavam, até encontrar a chupeta, igualzinha até na cor azulada... Alguns ensaiaram um grito de comemoração: E para o bebê, nada? É pique, é pique... Agora vai ser moleza... Atenção, coloca-se na boca do bebê, que imediatamente cessa de chorar, por mais estridente... Agora! E o danado do bebê continuou chorando, sem considerar o sacrifício e desespero dos que o ajudavam, por interesse, é claro, mas ajudavam... Outra senhora a bordo explicou que bebê é assim mesmo: Quando ele cisma com alguma coisa a seguinte tem que ser igualzinha em tamanho, cor e sabor.
O ônibus parecia engolir os quilômetros. Pneus chiando em contato com o asfalto. E o bebê chorando, para desânimo dos passageiros, resignados.
Marilda, a mãe da criança, pede que a mulher da poltrona do lado segure por minutos a criança, enquanto ela vai retocar a maquiagem. Ela faz força para se desvencilhar dos pertences e, ao ficar de pé, a descoberta: Aqui está a chupeta do bebê. O pequeno mas importante acessório estivera o tempo todo escondido entre parte do cobertor e do agasalho da jovem mãe. E a criança, como em desespero, chupa avidamente a chupeta, para felicidade geral dos passageiros, que começam os preparativos para descer na Rodoviária de Curitiba.





