Carlos da Silva
Da mesma forma que em Brasília rola um clima de repartição pública e ressecamento da pele, frescura de contribuinte que gosta de consumir hidratante, Salvador é exatamente o que o sulista imagina dela e dos soteropolitanos. A hospitalidade deles ultrapassa a expectativa do visitante e se torna inesquecível, como a beleza e simpatia das recepcionistas nos pontos turísticos.
Alfredo se entusiasmou com esses detalhes, mas preferiu testar primeiro a culinária. No café da manhã, consumiu talhadas de melancia, regadas a água-de- coco. Jurou a Dagmar, a esposa, que seria comedido. Conseguiu até desprezar uns quindins de Iaiá e pudins de coco saborosos. Tudo em nome da disciplina à mesa. Disfarçou e nada disse que começara a sentir aquele peso desconfortável no estômago. Uma boa caminhada lhe faria bem. Por isso concordou em partir para uma incursão ao Mercado Modelo, onde se reúnem dezenas de vendedores de produtos típicos do artesanato.
Contando, ninguém acreditaria: Alfredo quase assaltado, por duas ciganas. Ele comentou mais tarde, com funcionários do órgão de desenvolvimento do turismo, que até não se importaria em ser rapinado em alguns reais somente pela audácia das ciganas. Andava despreocupadamente, em companhia de uma colega de serviço, na larga calçada fronteiriça ao Mercado Modelo. Como por encanto surgiram as mulheres, também bonitas e elegantes. Enquanto uma fazia força para distanciá-lo, cerca de cinco metros, a outra cuidava de Elvira, a companheira de Alfredo.
Os argumentos eram os mesmos, na mesma sequência e ritmo: elas dispunham de meios eficazes para melhorar significativamente o relacionamento entre os dois, mediante módica contribuição. E, ágil como malandro deve ser, a cigana que atacava o visitante quase se apoderou da carteira de documentos e pouco dinheiro. A cigana já a havia pego e a retirava do bolso quando Alfredo, torcendo-lhe o braço com a mão direita, recuperou-a com a esquerda. Curiosamente, a cinco passos dali, dois policiais militares assistiam passivamente o assalto quase perpetrado. Indagados por que eles não interferiram, alegaram que não haviam sido solicitados...
Ao iniciar o almoço Alfredo recebeu de Elvira a informação de que seria louvável considerar que, por volta das 19 horas, teriam que se submeter ao sacrifício de experimentar quitutes da cozinha baiana. Ele foi realmente parcimonioso. Ingeriu algumas porções de feijoada e melancia. Teve a gentileza de não desprezar a água-de-coco servida in natura, isto é, nos cocos propriamente ditos. A tarde foi dedicada a passeio no centro comercial, apesar do aguaceiro de hora em hora.
Era mesa para baiano algum botar defeito. Ao longo dos oito metros de comprimento, por dois de largura, a mesa expunha porções representativas de quase toda a cozinha baiana. Era impossível deixar de prová-las. Com este argumento Alfredo saboreou acarajé, xinxim de galinha, moqueca de peixe, vatapá, caruru, mungunzá e outros. Até quanto o estômago permitiu. O avião que traria de volta os visitantes decolaria às 7 horas do dia seguinte. Alfredo ficou acordado a noite toda, tentando aliviar o estômago e os intestinos. Na hora do embarque relutou subir a escada e, trôpego, pediu ajuda de um comissário e se acomodou no sanitário, onde permaneceu durante toda a viagem.
O destemido viajante sentiu certo alívio ao imaginar que não precisaria descer da aeronave, pois sua viagem terminaria em São Paulo, escala no Rio.
Assim não seria necessário descer. Ao verificar que perto do sanitário dois comissários conversavam, Alfredo, sempre sentado, informou-os sobre seu estado de saúde e manifestou alegria por poder permanecer ali. Recebeu a promessa de que não haveria problema. Dez minutos mais tarde Alfredo voltou a suar frio ao ouvir no alto-falante a ordem do comandante: Estamos adotando o procedimento de pouso no Aeroporto do Galeão. Os passageiros em escala deverão descer para troca de aeronave... Até então ele tivera três motivos para não retornar à Bahia: a ingestão excessiva de comida, o assalto de que quase fora vítima e a permanência no sanitário. A demorada espera no Rio seria o quarto.





