Carlos da Silva
Arquivo FolhaExceto sua mãe e três irmãos menores, ninguém sabia onde Chiquinho conseguia o entusiasmo e vitalidade que ele aplicava em sua atividade comercial. Enquanto seo Bernardo vivia, nenhum problema preocupava dona Almerinda. Depois do acidente que a deixou viúva, as coisas ficaram complicadas. Não bastava se desdobrar na execução das tarefas domésticas. Era diarista em três ou quatro casas. Sempre recebia um dinheirinho para a compra do alimento no dia seguinte.
A primeira atividade de Chiquinho foi a venda de jornais e revistas. Era um negócio em consignação. Isto é, andava nas ruas sobraçando exemplares e, no fim do dia, acertava as contas com seo Nestor, um surdo que mantinha sempre atualizado o estoque de publicações. O garoto, aos 15 anos, gostava da atividade. Ao oferecer O Cruzeiro, Seleções e Diário de S.Paulo a Euzébio, proprietário de um salão de cabeleireiro, recebeu deste proposta para ser gerente do salão, que poderia explorar, com duas cadeiras de engraxate em plataforma e um expositor de jornais e revistas. Não pensou duas vezes. Ficou anos lucrando em três fontes, o que possibilitou uma folga a dona Almerinda, que passou a trabalhar somente em casa.
Chiquinho crescia profissionalmente. Foi convidado e aceitou trabalhar no setor de seguros de um estabelecimento bancário. Salário e comissões. No começo parecia difícil, mas ele deslanchou e em pouco tempo ascendeu à gerência do departamento. Por coincidência, foi após ter encontrado, num jardim de praça pública, uma caixa de papelão contendo 40 mil dólares. Ele fora com a mãe visitar um parente hospitalizado e, na volta, decidiram, para encurtar caminho, passar no centro dos canteiros. Ambos resolveram guardar a caixa no sótão da casa onde moravam, até que aparecesse quem tivera o azar de perder o dinheiro.
O entusiasmo, o dinamismo e a segurança de Chiquinho eram alicerçados nessa caixa. Ela tinha o condão de inspirar-lhe confiança em qualquer negociação. Esses atributos ele transferia à sua equipe de representantes. Eles próprios se surpreendiam com a tenacidade do chefe. Este, por sua vez, ficava tão à vontade na comercialização exatamente porque seus 40 mil dólares poderiam garantir-lhe o futuro. Seria um bom começo. Os raros insucessos eram transformados em pontos de análise. Seus comandados tinham que descobrir os pontos falhos, que não seriam repetidos. Valeu a pena. Sua equipe era considerada imbatível no confronto com a concorrência.
Chiquinho decidiu casar com Helena. Dona Almerinda ponderou que se sentiria feliz de ver o primogênito ao lado de Helena, a quem admirava. E aconselhou que essa seria boa oportunidade de utilizar aquela dinheirama escondida no sótão. Por que não? Um dia aquelas cédulas novinhas de 100 dólares teriam que ser gastas. Que o fossem em momentos de felicidade. Chiquinho e Helena resolveram concentrar as compras de móveis e utensílios numa só loja da cidade, de propriedade de um amigo e cliente, Marcelo, que não escondia a satisfação por ter sido contemplado.
Tudo corria como o combinado. Quando sobrava tempo, Chiquinho acompanhava Helena na compra para a casa onde iriam morar. Tudo teria que ser da melhor qualidade. Marcelo combinara com o cliente que, para facilitar, fariam o acerto de contas após a entrega da última encomenda, que foi um tapete para a sala de estar. Empunhando diversas notas fiscais, conferiu simbolicamente, pois confiava no comerciante, e passando-lhe um malote cheio de cédulas de dólares, disse: Agora é sua vez de conferir...
Marcelo escolheu cinco notas, olhou-as contra a luz, passou-lhes um detector de falsificação e foi enfático: Não entendi a brincadeira. Todas estas cédulas são falsas. O melhor que você tem a fazer é entregá-las à Polícia Federal. O delegado explicou que a caixa fora deixada por quadrilheiros perseguidos por policiais, na madrugada do dia em que Chiquinho a encontrou. Muitos amigos lamentaram o desfecho do episódio, menos o principal personagem, que argumentava: Não sei o que seria de mim sem a existência da caixa de papelão...





