Arquivo FolhaJarbas e Cremilda acabavam de cometer um ato que durante anos tentaram evitar: o casamento. Primeiro enfrentaram o civil. Meia dúzia de convidados se transformam em testemunhas e, após a assinatura, ficam com cara de panaca, um olhando para o outro, como se dissessem: ‘‘Não falta nada para afundar de vez esse cara’’. Depois, a cerimônia na igreja, com o indefectível desfile no corredor enfeitado de lírios. ‘‘Por que lírios?’’, indagou a vítima, isto é, Jarbas, que, na metade do corredor não conseguiu conter as lágrimas. Curioso é que isso aconteceu após ter recebido a explicação sobre lírios. ‘‘Eles significam virgindade da noiva e bondade da alma’’, arriscou Mirabel, ante o olhar de curiosos que se acotovelavam na área vip, próximo do altar-mor. Isto é, o mais importante, que padre Joaquim reservava para cerimônias que rendessem uns trocados.
Jarbas suspirou fundo ao final da união conjugal e piscou para Cremilda, em cujo rosto desaparecera o rubor que Mirabel ingenuamente provocara. E ninguém explicou por que Jarbas tremeu e suou frio após o vigário advertir: ‘‘Se alguém, dentre os presentes, conhece algo que impeça a realização deste casamento, que o diga agora ou se cale para sempre...’’ O que preocupa os nubentes nessas ocasiões são os 30 segundos de expectativa.
Enquanto se desenrolava a recepção e surgiam os primeiros a exagerar na ingestão de bebida alcoólica, os recém-casados providenciaram uma escapada secreta. Não conseguiram. Os ‘‘amigos’’ organizaram o barulhento bota-fora e a bizarra ‘‘chuva’’ de arroz. O destino era Paris. Iam utilizar em boa parte da Europa as passagens que haviam ganho do pai de Cremilda, ‘seo’ Augusto, com quem combinaram se encontrar em Lisboa, onde o sogro ficaria em casa de parentes e os jovens conheceriam tios e primos e continuariam a viagem no Velho Mundo.
A viagem foi cheia de trapalhadas, como de marinheiro de primeira viagem. O vôo doméstico deixou-os no aeroporto de Guarulhos, onde tomariam o avião direto para Paris. Enquanto aguardavam o momento de checar os bilhetes e despachar a bagagem, a experiente recepcionista perguntou se, por acaso, não haviam deixado os passaportes em uma das maletas. Não deu outra. Felizmente dispunham de tempo.
Jarbas e Cremilda passaram por acaso numa agência dos Correios, em Paris, e tiveram a mesma idéia de enviar um telegrama aos pais. Cremilda redigiu assim a mensagem: ‘‘Papai e mamãe. Nós os amamos muito e estamos com saudade. Chegamos bem e felizes. Não esqueça de mandar aquela grana. Aguardamos a chegada de vocês. Saudade, seus filhos...’’ Jarbas examinou o texto, elogiou a jovem esposa e ponderou: ‘‘Estaríamos ricos se ganhássemos por linha. Não há necessidade de chamá-los de papai e mamãe. Eles sabem disso, mais do que ninguém. Estão cansados de saber que os amamos e é claro que, distantes, a saudade aumenta. Se não tivéssemos chegado bem teria sido por causa da queda do avião. O mundo inteiro saberia. Logo... É natural que recém-casados se sintam felizes. Quanto ao dinheiro, seu pai nos disse que traria. Não necessitamos cobrá-lo. Quanto à chegada deles, é evidente que estamos aguardando e nem é necessário dizê-lo. E eles sabem que estamos com saudade, principalmente porque somos seus filhos. Não é necessário enviar-lhes mensagem alguma’’.
‘‘É necessário, sim, para dizer-lhes que serão avós (e você, pai) dentro de sete meses...’’ A mensagem foi transmitida.

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